Gosto forte de sangue na boca. Ele se levanta e olha para si mesmo. Seu corpo estava rasgado e mutilado, garras cortaram sua pele de ponta a ponta e agora o homem se lembra. Ele morreu.
Ao acordar ele não era mais o Sr. que um dia fora, era somente mais um, outro, apenas parte de um inconsciente coletivo. Despiu-se do ser, desproveu-se de memórias e sentimentos, arrancados do seu corpo estraçalhado.
O saber estar morto, o entender, era obviamente instintivo. Tudo agora seria instintivo. Essa criatura que acabou de nascer é feita de instintos e o rei de todos os instintos, aquele, o mais primal e governante de todas as vontades, está nesse instante urgindo. Fome.
Olhou ao redor e viu o caos. Estava bem no centro da maior rua da maior cidade do mundo. Onde um dia já se pode presenciar uma via pulsante de vida, agora se vê a artéria principal do apocalipse. Vários de seus iguais corriam pelas ruas, com seus corpos dilacerados e suas faces por vezes deformadas, suas bocas não continham o sangue que escorria e manchava a pavimentação e suas almas. Carros virados, pequenas explosões ao fundo. Os milhares de seres humanos caiam às dezenas no chão, sobrepujados pelos cadáveres que um dia foram seus amigos de trabalho ou talvez a sua família.
Deus havia tirado férias e o Diabo marcava ponto.
O motivo de toda a carnificina ainda era desconhecido, mas em poucas horas, de diversos lugares do mundo, pretensos especialistas iriam à televisão, ao rádio e aos jornais tentar explicar o inexplicável. Mas é claro que não havia especialistas, ninguém nunca tinha visto nada disso. É claro que não havia o que se discutir. E é claro, não havia mais esperança.
Poderia ser um vírus, uma doença. Mas essa teoria só serve para prover uma falsa luz no fim do túnel. Porque mesmo que seja um vírus, não cura. Não há tempo para se criar uma.
Pode também ser castigo divino, ou talvez o inferno esteja lotado e os mortos se recusam a descer.
Seja lá o que for ele está agora de pé em cima de um carro em chamas, gritando, uivando. Bradando sua dor e fúria, seu ódio e desespero como uma arma. Ele está morto, e foi jogado para o topo da cadeia alimentar.
Seu prato favorito?
Cérebro.
Tags: Conto, Escrita, Fudeu, Homenagem, Morte, Sangue, Zumbi
setembro 28, 2009 às 20:02 |
Essa é a primeira parte de uma pequena série em homenagem aos mortos-vivos mais famosos, sanguinários e com o maior body count de todos. Os zumbis.
Um obrigado a todos os filmes de zumbis, em especial Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead) por me ensinar exatamente o que fazer quando a hora chegar.
Atire na cabeça.
setembro 28, 2009 às 22:38 |
cara.. vc nao tem noçao de como eu curto zumbi hauhuaahuauhauhahu demais..
setembro 28, 2009 às 22:40 |
lol eu até imagino. Me amarro muito tb. Vejo tudo quanto é filme de zumbi que eu ouço falar.
setembro 28, 2009 às 23:26 |
Ric, eu ADOREI!!! Vocabulário rico, mas nada pedante…história interessante…parabéns irmão, vc tem muito talento ;)
setembro 28, 2009 às 23:32 |
Valeu maninha! Brigadão mesmo!
outubro 7, 2009 às 17:51 |
Deus havia tirado férias e o diabo marcava pornto? Excepcional!
Adorei essa frase!
=D