IDENTIDADE

     Um homem andando na cidade. Uma tarde escura numa área obscura.

     Ele anda sem medo, apesar da cidade não ser a mais pacífica. Pelo contrário, ela pulsa de raiva. As vielas cheiram a ódio.

     O homem sente este cheiro e se embriaga na sua doce onipresença. A garoa começa a cair somente para estimular aqueles já doentes pela putridez da vizinhança.

     Ele nem queria ter levantado para sair de casa, mas o cigarro acabou e tinha que procurar por algum lugar aberto para comprar. Queria se misturar à fumaça da neblina. Pelo menos uma vez queria fazer parte da neblina, não da poluição.

     Porém andara demais e acabou por se encontrar muito longe de onde queria ir. Encontrou outra droga.

     Os pequenos prédios cobriam as vias como se tivessem vergonha de mostrar seus defeitos. As poucas casa restantes se aglomeravam juntas umas as outras tentam se aquecer inutilmente, tentando resistir à invasão, inutilmente. Nas calçadas, plasticos amarelos delimitavam espaços para pedestres. Placas indicavam por onde andar. Buracos apresentavam uma pista de obstáculos para os transeuntes. Nas ruas sinais sinalizações pintadas coloridas interativas, brincam com cores e fazem formas diante da platéia esperando esperançosamente seu momento, sua vez de ir de um ponto ao outro.

     A ordem virou um caos – ele pensa. E o irita. Ele fecha os olhos para não ver o desastre eminente mas não consegue. O som estrondoso dos carros que buzinam, brecam, arrancam e batem uns nos outros são orquestrados pela baqueta emocional que paira no ar. A fúria enche os pulmões dos inabitantes dos veículos. Porém suas fúrias não são direcionadas, elas saem e voam no ar, se espalham e somem.

     Logo quando deixam o medo de lado, as pessoas se desgastam por nada.

     Se esses indivíduos soubessem o que ele sabe. Se essas pessoas tivessem idéia do quão precioso é a sua íra. Mas não adiantaria. Sem alguém para guiar, sem um líder, o sentimento se esvai, por nada.

     Ele vira os olhos para o lado e vê o motivo da gritaria na rua. O semáforo pifou e houve uma colisão no cuzamento entre alguns carros. Os motoristas, aos berros, discutem quem é o culpado. Mas o culpado não está entre eles. Não está nem perto. Naquela rua inteira ninguém nunca viu o culpado e muitos nunca irão nem saber quem ele é. Mas eles continuam discutindo. Sem um guia, sem alguém ou alguma coisa que os diga aonde e quando ir, travam.

     As pessoas gritam por medo, quando se sentem pressionadas, não somente por outrem, mas principalmente por uma situação. Uma escolha. Aparentemente simples. Frear? Acelerar? Sim? Não? Se chocar contra outro veículo é apenas uma desculpa para culpar alguém pelas sua má escolha e uma chance de gritar.

      Gritar sem se importar com o que gritamos. Gritamos em uma única língua pela cortesia de poder ser gritado de volta, dando a chance de outro alguém gritar. Mas nunca gritaremos juntos pois se gritássemos só haveria silêncio por toda parte.

     O homem encontra o que procurava. Mais um maço, mais um dia. Ele acende, o corpo vampiriza o necessário e força a expulsão do que não é. Assim, são todas as coisas. A briga do lado de fora cessou e aqueles voyeurs não mais excitados se espalham e somem, tal como a raiva. Tudo passa.

     Ele da outra tragada e passa. A fumaça o encobre e ele caminha de volta a onde havia saído em primeiro lugar.

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