O PREÇO DOS DESEJOS

     Há muito tempo atrás, existiu um homem que encontrou uma lâmpada mágica. Quando ele esfregava a lâmpada, um gênio saia de dentro dela e dizia, “Posso realizar todos os seus desejos, mas tudo possui um preço equivalente, em algo que já se encontra em sua pose.” O homem que havia encontrado a lâmpada era muito pobre e não tinha amigos nem esposa. Trabalhava como escavador para um grupo de arqueólogos. Seu trabalho era árduo, longo e frustrante, por não recompensar devidamente seu esforço.

     Não sabendo de nada que o gênio pudesse cobrar dele, ele logo se apressou em pedir. “Gênio, não possuo nada que o senhor precise, portanto se não for incomodo, desejo muito ter uma casa mais confortável onde morar.” Para o qual o gênio respondeu prontamente. “Claro. Mas lembre que você foi avisado.” E voltou para a lâmpada.

     Então o homem, esquivando-se, fugiu do trabalho e voltou para casa. Quando chegou lá, ao invés de encontrar o modesto casebre feito com materiais desconexos, ele vê uma casa como nunca havia visto antes. Para ele, era uma mansão. Saiu correndo e entrou na casa, extasiado. Descobriu que possuía vários andares e diversos cômodos. Porém, quando entrou em um dos quartos e olhou-se em um grande espelho, aproximou-se e fitou seus próprios olhos. Sua íris estava branca. Seus olhos, que um dia foram de um castanho forte, um marrom intenso, agora eram vazios.

     Assustado, esfregou novamente a lâmpada e chamou o gênio. “Gênio, tiraste de mim a cor dos meus olhos! Você não me disse que era esse tipo de preço que eu estaria pagando pela sua magia.” E o gênio respondeu. “Você não me deu a chance. Mas se assim desejar, posso reverter todo o processo, a casa some, a cor dos seus olhos volta. É esse seu desejo?” O humilde escavador pensa muito e responde. “Não. Deixe estar. Quero agora ser rico. Sendo rico eu posso resolver isso depois. Mas antes me diga, qual será o preço desse meu pedido?” E o gênio avisa. “A vida dos seus cabelos. Eles não mais terão sua cor e nunca mais crescerão. Ainda assim deseja prosseguir?” Ele passa a mão pelos cabelos negros dele com certo receio, mas por fim diz. “Tudo bem, eu posso resolver isso depois.”

     Então seus cabelos ficaram brancos e sem vida como seus olhos e como prometido nunca mais cresceram. Assim, ao andar mais um pouco pela casa, descobriu um dos quartos cheio de dinheiro, notas e moedas saiam de todos os armários, das gavetas, de todos os cantos, em todo o lugar chovia dinheiro sem parar.

     No correr dos dias, o homem fez vários pedidos. Queria ser mais jovem, queria ter amigos, queria ser mais inteligente e queria por fim casar-se. Os preços, como os pedidos, foram também ficando mais caros. Nesses dias, ele perdeu sua cor de pele, que era bronzeada pelas horas de trabalho ao sol, ficou como mármore. Suas expressões se foram, e junto com elas seu sorriso, que muitas pessoas admiravam por causa dos seus dentes que eram perfeitos. Seu modo de andar, com isso, passou a arrastar seus pés pelo chão e por fim perdeu o modo como falava. Perdeu todo o seu sotaque, velocidade do discurso e tudo que fazia sua fala característica dele. Sua fala era agora seca. Mas a seu ver, tudo isso era muito simplório e podia ser resolvido.

     Foi então que, casado, rico com uma bela casa e com vários amigos, encontrou-se numa situação em que, sua vida era cercada pelos atos do gênio. Um dia ficou pensando se poderia conquistar algumas dessas coisas por si. Então à noite deitou-se em sua deliciosa cama, fez amor com sua esposa. Ao acordar, muito bem disposto, vestiu-se tão bem quanto o dinheiro lhe permitia vestir, ligou para seus amigos e pediu que lhe recomendassem um lugar para ver e conhecer algumas pessoas. Esses lhe indicaram um parque, próximo à cidade.

     O homem então foi ao parque sozinho. Andou um pouco, comprou pipoca, atirou pedaços de pão no lago e sentou-se num banco para ver as pessoas passarem. Depois de quase uma hora sentado, percebeu que ninguém olhava para ele. Quando olhavam, era como se o fitassem muito fixamente por um tempo e depois viraram o rosto. O homem não entendeu direito o porquê disso. Irritado, chamou novamente o gênio ali mesmo.

     “Pronto para o próximo pedido?” Disse ele. “Não, eu quero saber por que as pessoas me encaram. O que se passa?” “O senhor fez muitos pedidos. Pode estar vestindo um terno para cobrir sua pele, óculos para cobrir seus olhos e chapéu para cobrir seu cabelo. Mas isso não era apenas a sua aparência, era também quem você é. Você se desligou de você mesmo e agora nem as outras pessoas o reconhecem como pessoa. Mal podem vê-lo.” Disse o gênio com solenidade.

     O homem saiu do parque e voltou para casa. Sentou-se em seu escritório e começou a pensar sobre o assunto, dando uso ao seu pedido por inteligência. Chamou o gênio, para questioná-lo sobre reverter alguns desejos, mas esse lhe disse que só poderia reverter todos, não somente um. Como não gostava da idéia de perder todos os seus atuais benefícios, resolveu pensar mais sobre o assunto.

     Chegou à conclusão que a solução deveria ser um último pedido. Invocou o gênio e o ordenou, “Quero realizar apenas um último desejo, quero que as pessoas voltem a me perceber, mesmo que eu tenha perdido algo de mim, quero que todos me vejam como antes.” Ao que o gênio respondeu, “Está certo, porém esse desejo custará caro, não menos que os seus princípios.” O homem nunca havia pensado sobre princípios, e achou que como eles não influíram na sua vida até aquele ponto, então não teria problema em livrar-se deles. Aceitou o preço.

     Para testar o desejo que acabara de ser concedido, resolveu sair para a cidade, avisou sua mulher que não esperasse acordada e saiu. Andou pelas ruas, entrou em bares, dançou em boates. Interagiu da forma que sempre desejara com as pessoas. Elas o viam e ele gostava disso. O respeitavam pelas suas roupas, seu dinheiro e estavam alegres ao seu redor e isso o fazia feliz.

     Quando se cansou, voltou para casa e ao entrar encontrou sua mulher na sala. Ela acordou quando ele bateu a porta e se levantou. Estava muito preocupada devido à hora pois estava quase amanhecendo. “Não mandei que não me esperasse? Vá dormir logo.” Disse ele rispidamente. “Eu só estava preocupada, já é quase manhã e…” Mas não conseguiu terminar o que ia dizer. Recebeu um forte tapa de seu marido e foi enforcada até a morte.

     Ele não soube dizer o porquê fez aquilo. Mesmo em sua mente, não soube pensar em um motivo que o fizesse matar sua esposa. Sentiu raiva e logo o fez. Ela estava morta. Foi à cozinha sentindo um misto de raiva e confusão. Tomou um gole de água, respirou, fechou os olhos. Logo a culpa foi tomando conta da confusão. Sentiu ódio de si mesmo. Sua mão tateou uma faca na pia e acertou seu próprio pescoço. Nem teve tempo de pensar no que estava fazendo.

     Na sala, não há corpo de mulher em seu humilde casebre. Nem lâmpada. Tudo era um desejo que sumiu carregado pelo vento.

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5 Respostas to “O PREÇO DOS DESEJOS”

  1. mmqate Says:

    Adorei o texto! Muito bom mesmo, parabéns! :D

    http://www.muitomelhorqueatuaex.wordpress.com

  2. Ricardo Jevoux Says:

    Obrigado! =)

  3. Willy Barp Says:

    Será que ele não desejava a morte desde o começo?
    sei lá.
    gostei do texo.

  4. jorge leal Says:

    “Há muito tempo atrás” é péssimo!

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