PERDÃO

     O homem que está sentado na poltrona chama-se Andre. A poltrona vermelha combina com o carpete bem desenhado e com a lareira, que se encontra logo à frente e complementa todo o ambiente. A sala encontrar-se-ia imersa na escuridão, não fosse a luz do fogo diante de Andre. A lenha estalava com um compasso caótico e levemente perturbador, tentando talvez contrastar com o silêncio ao seu redor, na casa e do lado de fora na rua.

     Toda a sala, como a casa, fora decorada para parecer antiga, ou para reforçar essa idéia, já que era realmente antiga. Era daquelas casas grandes e espaçosas. No momento, porém, a sala não parecia tão grande. Como se a própria casa lê-se a mente de Andre e se retraísse ao seu redor, como uma concha. Faltava a Andre descobrir se era a casa que queria protegê-lo ou a escuridão que vinha tomá-lo.

     Sentado há horas, apenas olhando para o fogo em silêncio, não se mexeu nem quando ouviu os passos de uma mulher entrando na sala, traída pelo som de seu sapato de salto alto que só foi abafado pelo carpete quando se aproximou da lareira. Olhou esquivamente para Andre e sentou-se ao chão, de costas para o fogo.

     A madeira na lareira solta novos grunhidos, como se soubesse que queimava viva. Seu som fora o único a quebrar o silêncio fúnebre do aposento por bastante tempo.

     – Não foi sua culpa – ela disse.

     A voz de Andre sai de sua boca dando a impressão de tranqüilidade, mas suas mãos tremiam. Ao perceber essa reação involuntária, ele aperta o braço da poltrona com força, quase rasgando o forro vermelho.

     – Eu… Fui eu quem fez, ninguém me forçou. – diz Andre, mexendo a cabeça pela primeira vez em horas, desviando seu olhar do fogo, para o seu colo.

     – Você estava com raiva, não pensava direito. – ela tentava, com voz suave, acalmá-lo.

     – Não. Eu não estava com raiva. Eu simplesmente não pensava. Eu não tinha ódio, rancor, lembranças. Eu não era ninguém, não era uma pessoa. Eu estava em paz.

     – Você se jogou no abismo, Andre. E ele se jogou em você.

     – E você? E QUANTO A VOCÊ? – Andre se descontrola e rasga o forro da poltrona. – Não. Esqueça, eu não tenho o direito de te perguntar isso.

     – Não, não tem. E quanto a você? Eu estou lhe estendendo a mão, para que você saia do abismo. O que você vai fazer?

     Andre olha novamente para o seu colo. Lá, a arma repousa com uma serenidade paradoxal à condição da sua existência.

     – É tarde demais para me estender a mão. – Ele levanta da poltrona com a arma em punho e caminha até o canto da sala, à esquerda da lareira. Estirado no chão, encontra-se o corpo de uma mulher com salto alto.

     – Isso não precisa acabar assim – ela clama.

     – Já acabou. – Andre se senta ao lado do corpo.

 

     Meia noite. O sino da igreja se dobra de um lado a outro a cada badalada como se tentasse enxergar por detrás dos muros de pedra construídos ao seu redor. Procurava descobrir porque naquela noite, treze badaladas foram ouvidas.

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Uma resposta to “PERDÃO”

  1. Marcelo Master Says:

    simplesmente sensacional!!!!

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