VALORES

     Um dos meus estilos favoritos é o épico. Por muitas razões. Eu sempre quis escrever um épico, minha cabeça de tempos em tempos volta à essa idéia fixa que nunca vinga. Eu penso sobre, imagino um tema, planejo, faço até algumas anotações, já tentei até reinventar a roda, mas sou impedido pelo básico. Não tem como escrever um épico hoje em dia. Não é nem que esteja fora de moda, pois a moda sempre volta. O épico morreu mesmo.

     Bem, pra começar do início, eu não sou muito bom com poesia e infelizmente essa é a parada do épico, poesia. Tem toda aquela história sobre ser um tema inicialmente formado na oralidade, uma história contada de pessoa a pessoa, cantada pelos bardos. Por ser contada, tinha que ser em poesia pra ficar fácil de lembrar. Infelizmente, a mim não foi dado o dom da poética.

     Outra coisa que o épico precisa é de um herói, e, ao contrário do que a maioria pensa, inclusive alguns grandes estudiosos (incluindo alguns professores meus), o herói é a figura mais importante do épico e não a forma poética. Note bem, eu disse mais importante, não mais difícil. Quem já tentou escrever uma porcaria de um poema decasilabico heróico sabe.

     O problema é que o herói épico, não existe mais, mas ele não existe MESMO. A ponto de ser inverossímil. O herói é aquele cara que incorpora a moral de uma nação. Ele é o símbolo daquele povo, o melhor dentre os seus. Ele é a personificação da perfeição e inabalável. Nada tira o cara do seu trono e a sua lealdade indisputável é para com a sua gente.

     Pouca gente sabe é se você perguntar pra qualquer um da igreja a chance dele saber disso é menor ainda, mas o símbolo da cruz não foi escolhido à toa. São trocentos motivos, mas um deles tem a ver com os sete pecados capitais. Para antagonizá-los, a igreja tem quatro virtudes cardeais (cruz, quatro, sacou?). São elas, justiça, prudência, temperança e fortaleza (alguns dizem força, mas a palavra não define bem o significado a ser atingido). Pois bem, o herói épico personifica essas virtudes a ponto de tê-las guiando sempre os seus atos. Claro, ele desliza às vezes, como Ulisses dando esporro em Poseidon, mas aí ele se fode. Quando ele faz as pazes com as virtudes, tudo volta a correr bem.

     Agora, como fazer então um épico atual se esses valores morais não existem mais. Honra, nobreza, caráter, princípios, as virtudes ditas acima, o famoso “gentleman” inglês. Esses valores reunidos são um código implícito de como ser digno consigo e com outros. Mas as pessoas esquecem que boa parte da importância desse negócio é que ele é implícito! Quando você manda alguém ser uma boa pessoa e ela é, existe uma boa chance de quando você não mandar, ela não ser.

     Exemplo, leis. Leis que forçam socialização entre pessoas. A legislação civil é cheia dessas coisas, como leis pra convivência em condomínios e coisas assim. Existem tantas obviedades naquele negócio, que é difícil de acreditar que alguém precise ser lembrado daquilo, e talvez algumas pessoas só descumpram essas leis por ela ser forçada a elas.

     O meu ponto é, não se pode impor valores sobre alguém, é como se eu quisesse impor arte abstrata na cabeça de um poeta parnasiano. Não dá certo. Primeiro que o parnasianismo era uma bosta. Mas mais importante, os valores têm que ser ensinados.

     Aí eu volto à minha velha retórica de que todos os problemas poderiam ser resolvidos com um sistema de educação mais eficaz, blá blá blá.

     Fazer o que, é isso mesmo.

     Ou seja, se eu fosse fazer um épico eu teria que desconsiderar os valores e pegar o outro quesito para o herói, ser um símbolo de sua nação. Os gregos pegaram um guerreiro-filósofo por Homero, os romanos um guerreiro grande e burro por Virgílio, os portugueses um navegador cagão por Camões e os ingleses um bárbaro insano matador de feras por… bem, ninguém sabe quem escreveu Beowulf.

     Mas e o brasileiro? Qual seria o símbolo da nação para o povo brasileiro?

     Tenho calafrios só de pensar na resposta.

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3 Respostas to “VALORES”

  1. Maria Rosa Says:

    voce é muito bom e que continue assim, sou sua fã número um. Não me pergunte se gostei, eu ameiiiiiiiiiiiiiii

  2. Trilce Says:

    Olha, endosso as palavras da companheira! Excelente o seu post, principalmente quando traça os perfis dos heróis épico + consagrado! kkkkkkk Quanto sacrilégio, Ricardo!
    Já que se levantou a bola do “herói” brasileiro, me veio à cabeça Macunaíma… O problema é que mto clichê, aí não dá! Mas temos uma gama de “K-Guy-ver’s” pelo país afora: Lula, Roberto Carlos, Pd. Marcelo Rossi, enfim! Fica a critério de vcs!

    Abraços.

    • Ricardo Jevoux Says:

      Sacrilégio? Não acho que tenha cometido nenhum. Eu não faço a ligação que as pessoas normalmente fazem entre igreja e deus ou religião e deus (sim, com minúscula). A ligação que existe é a de religião e igreja com dinheiro, manipulação e por aí vai. Deus é uma coisa completamente diferente.
      Quanto aos heróis, até poderia fazer sentido Macunaíma. O problema é que não existe mais índio hoje em dia (eu não considero aqueles caras de cabelo liso e camisa de político índio). E já na época em que Macunaíma foi escrito, o índio era desrespeitado e tratado como um pária, cidadão de 2a categoria.
      Agora, já o Lula… não sei não, esse é promissor. Apesar de todos os pesares, não se pode dizer que ele não tem o carisma necessário. lol

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