VIAGEM LIVRO ADENTRO

     Acho eu que o melhor de se ler um livro é ser lido de volta por ele, quando você se identifica com o que está lendo sem que, as vezes, nunca tenha aberto a boca pra falar o motivo dessa identificação.

     Quando um autor que você nunca viu, nem conheceu e talvez esteja até morto há muito tempo, consegue falar de alguma coisa que poderia ter você mesmo como exemplo com tamanha riqueza de detalhes que quando lê imagina que poderia ter escrito aquilo, caso tivesse a mesma prolixidade do autor.

     Esse autor na verdade toma o leitor pelas mãos e o ergue ao céu, somente para depois mergulhá-lo em si mesmo, numa releitura própria, um tipo de auto-avaliação, mas sem julgamentos, sem resultados. Somente a mera exposição do eu como em um museu interno. A vantagem é que se pode olhar para o extintor de incêndio com cara de pensativo sem ninguém rir. E no caso de risos, será você mesmo rindo de sua própria imbecilidade, o que é na verdade, o objetivo de toda essa reflexão.

     Fico imaginando o que significa quando o livro que te traz toda essa experiência é um bestseller, daqueles traduzidos em dezenas de línguas. Será mesmo que várias pessoas passaram pelas mesmas coisas? Será que lendo o livro elas relembraram e reviveram uma parte de suas vidas e se fizeram, então isso não significa que há uma certa ligação entre os leitores da obra tanto quanto com o autor?

     Claro, há leituras e leituras. Nem todo mundo absorve as mesmas coisas de uma obra, aliás, estou convicto de que não existem duas pessoas no mundo que entendam um objeto da mesma forma. Se a obra em questão for muito boa mesmo, essa então provavelmente terá mais de uma interpretação para cada um que a apreciar.

     Pois depois de ter lido um determinado texto, aquele texto passa a não ser mais do autor (salvo direitos autorais e etc, advogados raramente se interessam em filosofias) já que o conteúdo é modificado por quem lê, um barro que se molda a cada linha e ganha forma na mente do leitor.

     Sendo assim, seria então a leitura uma viagem para dentro de si? E ao interpretar um texto estariamos interpretando a nós mesmos já que cada um teria uma leitura que seria única como uma impressão digital? Cada texto, cada livro lido traz o leitor um passo adiante para o auto-conhecimento por meio de auto-crítica guiada por escritores que, ao menos na maioria das vezes, nunca ouviram falar deles.

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Uma resposta to “VIAGEM LIVRO ADENTRO”

  1. Willy Barp Says:

    Acho (acho) que é mais ou menos o que acontece com as pessoas… Como quando lemos as pessoas e somos lidos e decifrados e catalogados nos entendimentos do outro.
    Nesse sentido de piração lemos uns aos outros e nos deliciamos ou odiamos com as imagens do mesmo que encontramos nos velhos amigos ou até mesmo nos desconhecidos… Descobrimos vários “eus” andando loucos por aí… (heheheh). A única diferença é que as pessoas mudam mais rapidamente que os livros. Podemos passar várias vezes pelo mesmo livro e ele trará sempre as mesmas palavras e a mesmas linhas e os mesmo signos. Já as pessoas…
    Talvez por isso muita gente prefira manter relações mais próximas com os livros…
    =O
    Esquisito isso, né?
    hehehhehe
    Ótima reflexão.
    ps: Tá aí minha impressão digital do seu texto!
    Abraço!

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