A CRISE NO MUNDO DOS QUADRINHOS

Texto de Mark Miller na edição #1 da mini série Red Horizon do Savage Dragon. Bem instrutivo e atual apesar de escrito faz pouco mas de 10 anos.
Traduzido por mim e revisado pelo Luan.
Segue o texto:
———

Há algum tempo, nós nesse ramo sentimos uma pequena queda nas vendas – só pro caso de você não ter percebido – e é claro, quando algo ruim acontece, você normalmente pode ter certeza de que as pessoas vão começar a pôr a culpa umas nas outras. Bem, foi o que eles fizeram. Especuladores, fãs, companhias, distribuidores, criadores, eles todos começaram o que se pode chamar de jogo da culpa. É claro que todos podem carregar um pouco do fardo da culpa, se estiverem dispostos, mas eu tenho acredito fortemente que só há um único e verdadeiro vilão nesse pequeno mistério… ah, não, eu não vou entregá-lo assim tão fácil. Ao invés disso, vamos ver o que você consegue deduzir da forma como esta história se desenrola:
Há muito, muito tempo, em uma loja de quadrinhos perto de você, um garotinho chamado Bobby entrou para comprar o seu primeiro quadrinho. Ele passou pelo balcão a caminho dos fundos da loja até que ele ouviu uma voz sussurrando, “Ei, garoto…” Bobby virou a cabeça, com medo de ter quebrado alguma regra da qual ele não estava ciente. A voz pertencia a um jovem por volta dos seus dezesseis anos vestindo uma camisa preta desbotada do Bob Marley. Era a figura típica do rastafári, fumando um grande cigarro de haxixe e com uma coroa de folhas de Marijuana saindo de suas costas. Se Bobby tivesse idade o suficiente pra saber o que era Marijuana, ele provavelmente não se perguntaria por que os olhos daquele jovem pareciam tão cansados no meio da tarde. A voz continuou. “… você tem que deixar a sua mochila aqui.”

“Ah, desculpe.” Respondeu Bobby, um pouco por ter mesmo desrespeitado uma regra que ele não conhecia.

“Não me parece que você vá roubar alguma coisa… mas são as regras.” Um pequeno sorriso apareceu do canto da jovem boca de Bobby. Já mais calmo, ele olhou além da cabeça do atendente da loja para a parede cintilante atrás dele. Lá, em filas cuidadosamente alinhadas, embalados em plástico, estavam livros extravagantemente decorados cujas capas gritavam “olhe pra mim!! sou eu quem você quer!!” E então ele olhou. Enquanto seus olhos vagavam pelo canto de cada embalagem, ele viu pequenos adesivos amarelos de preço anunciando o valor de cada um dos livros contidos dentro. Dez dólares, oito dólares, vinte dólares, e alguns deles chegavam a cento e cinqüenta dólares. Os olhos de Bobby vacilaram, quando seus olhos atingiram o chão, com as mãos chegando ao bolso, ele o puxou de dentro pra fora. Ele abriu a mão, e contou: cinqüenta… setenta e cinco… oitenta e cinco…noventa e cinco…noventa e seis. Noventa e seis centavos. Não era exatamente um dólar, e certamente não eram dez dólares, menos ainda cem dólares. Bobby não estava feliz com a situação.

“Eu não achei que elas iriam custar tanto…” disse ele, mostrando seu desapontamento para o jovem atrás do balcão, “eu não pensei que-“

“Que?”, o atendente interrompeu, embora ele não estivesse certo de ter interrompido alguma coisa, “Que qui cê disse aê?”

“Eu disse, eu não pensei que quadrinhos fossem tão caros”, Bobby repetiu. O jovem virou a cabeça para ver o que o Bobby estava olhando; ainda que ele soubesse exatamente o que estava pendurado na parede atrás dele por quatro dias da semana depois da escola, e provavelmente até nos dias em que ele não estava lá.

“Ah… ah, não, esses são os itens de colecionador. Tem um monte de quadrinhos baratos bem atrás de você.” Bobby se virou para as prateleiras de quadrinhos, cada uma implorando para ele da mesma forma que as plastificadas estavam. Por alguma razão, entretanto, elas pareciam não ter a mesma aparência magnífica das que estavam atrás do Bob Marley. “Você nunca comprou uma revista em quadrinho antes?”

“Hmm mm” Bobby zumbiu um ‘não’ quase inaudível à pergunta.

“Bem, dexeu te mostrar algumas então. Beleza?” O atendente se recompôs enquanto pulava da sua cadeira e por cima do balcão. ‘Ele não deve estar tão cansado quanto parece’ Bobby pensou consigo mesmo. O tour começou com as revistas que eram lançamento, uma pequena prateleira com pouco mais de um metro transversalmente disposta sob três camadas de revistas novinhas, cada uma gritando aos alegres olhos de Bobby. Super-Homem. Batman. Homem-Aranha. O Incrível Hulk. Bobby conhecia todos eles, mas nunca pensou realmente neles como personagens de quadrinhos, só como séries de TV. Ao lado das revistas mais novas, havia caixas do que o vendedor chamava de “velharia”. Haviam realmente muitas pra se olhar, então essa parte do tour foi breve. Depois veio uma estranha prateleira de madeira cheia de quadrinhos que estavam meio surrados. Bobby então se lembrou do ferro-velho em que seu pai o havia levado naquele ano e lembrou-se do pai ter lhe falado que ‘só porque algo não está perfeito, não quer dizer que não serve pra nada’. Aqueles carros, ele imaginou serem como as revistas na caixa de madeira, “essa é a caixa dos que custam 25 centavos.”, o tour continuou. Seguindo pelas paredes estavam filas de revistas que estavam quase perfeitas, mas não tanto quanto os que estavam na prateleira dos lançamentos. Com estas, o tour estava concluído, Bobby pensou. Pra dizer a verdade, ele provavelmente não teria notado se o garoto da camisa do Bob Marley continuasse falando algo, porque uma destas revistas estava gritando muito mais alto que qualquer outra. Estava gritando tão alto que Bobby provavelmente não notaria se uma bomba explodisse bem na sua cara naquele instante.

Ele esticou sua pequena e rosada mão e segurou no canto de uma revista que pegou seus olhos e se recusou a largar. ‘X-MEN’, lia-se no título e abaixo disso uma estranha mulher negra sendo rasgada e transformando-se numa estranha e melancólica besta… Ela o deixou fascinado, as linhas limpas e simples movendo-se em conjunto para formar sentimentos que foram concebidos como uma forma de arte que era completamente nova pra ele. Página após página, ele olhou para os desenhos, maravilhado e cores que penetravam os seus olhos, cativando-o e literalmente viciando a mente do garoto na história. Quase babando de alegria, Bobby sabia que tinha achado aquele quadrinho, que poderia pagar com o que sobrou da sua mesada semanal e ainda comprar uma casquinha de sorvete de chocolate na sorveteria ao lado.

Ele marchou até o balcão e sacou o seu dinheiro, jogou os sessenta e cinco centavos, preço de capa, e forçou intensamente um riso ao Bob Marley. “Já achou uma que você gosta?”, disse o Sr. Marley, então ele pegou a revista que estava de lado para ver melhor, “Ah, hey, essa aqui é boa. Paul Smith, ele é o cara! Aposto que essa vai virar item de colecionador. Aqui, deixeu te dar uma sacola e uma embalagem pra você manter ela inteira…”.

‘Um item de colecionador’ pensou Bobby, “wow.”. O jovem levou a mão até debaixo do balcão e sua mão voltou com uma das embalagens que proclamavam as revistas da prateleira de cima párea a realeza. Ele abriu e com cuidado, escorregou a Uncanny X-Men de Paul Smith para o seu lugar de direito.

“Aqui está.”

“Obrigado – ” o Bobby disse com um sorriso enquanto pegava a sua mochila e se dirigia à porta, então, pensando na sua mesada, que vinha num cronograma regular, desde que ele não tacasse fogo no cachorro ou algo do gênero, ele se virou e complementou, “- até semana que vem!”
Uma década depois, Bobby passou pelo colegial e tinha uma bela coleção, e alguns lapsos na mesma, que ele prontamente recuperou nas edições da ”velharia”. Ele comprava mais ou menos de quatro a seis revistas por semana na loja. Ele percebeu que os livros subiram de preço drasticamente nos últimos anos, mas ele continuou fiel ao fantástico mundo, ou seria melhor dizer, ‘mundos’ dos quadrinhos. Parecia que para cada livro que ele pegava, havia mais um que ele queria para sua coleção. Maravilhosos novos artistas, mostrando a Bobby novas direções que ele nunca tinha imaginado na arte. E ainda assim as lendas continuavam trazendo o melhor nos quadrinhos todo mês. Bobby estava no paraíso e ele queria que durasse para sempre. Não durou.

Logo, Bobby começou a perceber mais e mais quadrinhos nas prateleiras todo mês. Sua leal prateleira de um metro com ‘lançamentos’, aparentemente foi injetada com esteróides, estava grande o suficiente agora para ocupar uma parede inteira da loja. Seria maravilhoso ficar horas e horas olhando para os maravilhosos novos trabalhos de arte, se fossem tão maravilhosos assim. Seria glorioso sentar e ler as fascinantes novas histórias, se elas fossem tão fascinantes assim. Elas não eram nenhum dos dois. Na verdade, elas eram simplesmente o oposto; os novos artistas eram só uns moleques que há cinco anos não conseguiriam nem um trabalho em Malibu, e mesmo assim aqui estavam eles, em alguns dos títulos que o Bobby tanto amou por toda sua vida. Não somente isso, mas a história ficou tão óbvia, juvenil, e por vezes tão ruim que ele não conseguia passa pela maioria das revistas sem perder o pouco do interesse que ainda lhe restava. Os quadrinhos haviam perdido algo, talvez tenha sido a inocência. Talvez tenha sido a consistência do esforço de quem os fez. Seja lá o que foi, estava ficando difícil, para Bobby, uma obrigação até, achar uma revista que ele quisesse comprar. Até a sua lealdade a alguns dos antigos favoritos se esvaiu quando ele viu que eles tinham perdido o entusiasmo no qual um dia ele havia saboreado.

Bobby tentou se divertir numa ida à loja de quadrinhos mais uma vez, até levou com ele o seu jovem sobrinho, Justin, pensando que talvez pudesse reviver seus dias de infância pelos olhos do garoto. Olhando em volta, ele pegou uma revista que costumava estar entre suas favoritas e a abriu. O olhar de desgosto apareceu em sua face quando ele descobriu que a linda arte na capa não era a mesma no interior da revista. Esse tinha sido o limite, a última gota havia sido derramada. Não é que não houvesse bons livros pra se comprar, só que se tornou um grande esforço achá-los no meio do palheiro de merda que aparecia toda semana. Bobby estava entristecido e com raiva, com certeza ele não queria ficar nem mais um segundo na loja. Ele virou para o seu sobrinho e perguntou se havia algo que ele queria. “Tem muita coisa…”, pronunciou Justin, “eu não consigo ver as figuras.”.

Bobby entendeu perfeitamente. Onde uma vez ele havia entrado nessa mesma loja e vagado pelas gloriosas capas e a arte pura dentro delas, agora ele via olhares distorcidos, caras zangadas e detalhes inúteis e supervalorizados que tentavam quebrar as barreiras de tudo ao seu redor. Ele não agüentava mais. Pegando o sobrinho pelo braço rechonchudo e indo em direção à porta, ele parou para olhar para o vendedor; o garoto magrelo do Bob Marley foi substituído por um garoto mais velho com óculos largos e um formato que parecia uma tartaruga. “Vejo vocês semana que vem!” O garoto tartaruga despediu-se carinhosamente.

Bobby respondeu, “Não, eu receio que não.”

FIM

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