SACRIFÍCIO

O moleque com seus reles oito anos de vida já possuía um currículo invejável em termos de leitura de quadrinhos. Ele lia como quem engolia as páginas, aglutinava quantidades absurdas dos estimados gibis. De manhã, de tarde, de noite, não tinha hora. Andando na rua ou durante o almoço.

E foi no almoço que ele viu a toalha! Aquela toalha de mesa vermelha quadriculada que cobria o vidro sob seu prato de comida era mágico. Ele não pensou duas vezes, puxou a toalha, derrubando no chão o prato com comida e tudo, amarrou no pescoço o artefato místico e com a heróica certeza dos predestinados, tacou-se janela afora.

O garoto sacoleja um pouco, mas logo pega o jeito. Parece que nasceu para isso. Ele voa, sua toalha de mesa se debatendo no pescoço, tamanha sua velocidade.

Porém o vôo não durou muito. Olhando para baixo, ele vê uma senhora atravessando a rua lentamente enquanto a poucas dezenas de metros um carro virava a esquina numa velocidade que fazia o ato de frear, uma opção inútil, e até incauta.

Pendendo todo o seu quase nulo peso para frente, ele zuniu, como uma bala para vencer o espaço até a velha senhora. Tirou a transeunte desatenta de perigo no último segundo, mas olhando para o carro que havia passado por eles, viu que o motorista com o susto havia perdido o controle e o veículo iria capotar a qualquer instante!

Dizendo “Tome mais cuidado ao atravessar a rua, senhora!”, deixou-a em segurança na calçada e foi em direção ao carro. Tentou segurá-lo pelo pára-choque, mas este logo cedeu e ficou em sua mão, saindo do carro. Tentou o vidro traseiro, fincando os dedos nele pás o mesmo aconteceu. O carro somente parou quando o garoto o invadiu e furou o chão, prensando os pés contra o asfalto.

Cansado, mas feliz consigo mesmo pelos seus feitos, avisou ao motorista “Não precisa dirigir tão rápido na cidade. Podia ter machucado alguém!” e saiu pela porta de trás.

Ouviu tiros e percebeu sem demora que o carro havia parado em frente a um banco e que este estava sendo roubado! Podia ouvir a polícia lá no final da rua, mas até a sua chegada, poderia ser tarde demais para os reféns.

Entrou no banco quebrando as janelas do andar de cima que era aberto para o térreo e se mostrou, de peito aberto, sobre uma bancada. Os bandidos de início não entenderam, mas depois riram dele e atiraram até suas armas estarem descarregadas.  Os risos logo se tornaram olhares incrédulos quando viram o pirralho ainda de pé e desafiador. Com um pequeno esboço de sorriso, o jovem lança laser dos olhos contra as armas dos assaltantes, inutilizando uma a uma. Com os reféns agora seguros, o moleque pega os três ladrões pelo colarinho e voa com eles para a polícia do lado de fora.

No exterior do banco, o fedelho pousa no meio dos policiais e larga os bandidos, mas estranha todos ao seu redor estarem olhando para cima. Virando seu rosto para o céu também, ele vê ao longe quatro grandes mísseis se aproximando em alta velocidade.

Tentando sair do choque, ele balança a cabeça e alça vôo novamente. Ainda ao longe, ele destrói dois mísseis com seus raios, transformando seus destroços em mera chuva de pó. Fechou os olhos e atravessou o terceiro com o próprio corpo, explodindo-o também em pedaços.

Teve que dar a volta e se apressar muito para chegar ao último, dava pra ver lá do chão seus dentes rangendo e os olhos fixos no objetivo. Chegou então ao aparato militar e sentou nele, quando achou os controles enfiou a mão e arrancou um enorme emaranhado de fios.

O míssil caiu então, desativado e inofensivo, com o rapaz deitado em cima dele. Os grupos de policiais, os poucos civis que se aproximaram incrédulos e inclusive os bandidos que foram capturados se aproximaram cautelosamente do menino, o receio, é claro, mais por causa da bomba na qual o garoto repousava exausto de olhos fechados, do que nele mesmo. Enquanto as pessoas chegavam mais perto, passo a passo, o guri ouve um barulho, um chiado muito distante. Seus olhos se abrem vagarosamente e seus ouvidos atentam.

Ele se levanta, bate a poeira das suas roupas e levanta vôo, acompanhado de uma salva de palmas e urros de felicidade. O pequeno herói voa por alguns minutos numa velocidade incrível até ver a fonte do estranho chiado no horizonte. Uma criatura gigante, horrenda, com cara de lagosta, quatro pernas, seis braços com garras, mãos e tesouras nas pontas. Olhos por todos os lados do rosto, cada olho soltando um raio de uma cor diferente. Quando o garoto, enojado com a escamosa criatura se aproxima, precisa se afastar de novo para pescar um prédio, cheio de pessoas que o diabólico monstro havia arremessado.  Pôs o prédio de volta no solo, no meio de uma rua distante e, com os braços esticados acima da cabeça, alavancou-se contra o inimigo como se fosse um dos mísseis que acabara de destruir.

Porém o plano não deu certo, atingiu a carapaça e foi jogado para longe no impacto. Tentou acertá-lo com o laser dos olhos, mas também foi em vão, pois estes eram repelidos pelos raios do próprio monstro.

O garoto pára no ar, pensando, o monstro uiva loucamente, deliciado com a sua vitória. O pequeno então faz a única coisa que lhe restava fazer, ele precisava salvar as pessoas.

Fazendo um arco, ele voa para baixo, até as pernas da criatura. Agarra e faz força para cima. Muita força. Lentamente, uma perna sai do chão, depois outra, o monstro começa a se debater, mas de nada adianta, o garoto não larga e continua sua escalada. E continua. E prende a respiração após uma longa aspiração.

Os dois sobem, sobem, sobem e chegam ao espaço, e continuam e quando o jovem acha que foi longe o bastante ele gira, gira, gira e larga o monstro, boiando no vácuo para longe da terra. O moleque sabia que ia para uma viagem sem volta, tinha consciência de que o retorno era impossível. Usou os últimos sopros de ar em seus pulmões para se impulsionar na direção do seu planeta, mas não foi o suficiente. Sua força se esvaiu, seu ar acabou, cada musculozinho destreinado do seu corpo simplesmente desistia. Ele fechou os olhos.

À noite, uma criança, da sua casa na árvore, faz um pedido a uma estrela cadente que se desintegra na atmosfera. Ele que ter super-poderes.

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Uma resposta to “SACRIFÍCIO”

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