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SACRIFÍCIO

maio 13, 2010

O moleque com seus reles oito anos de vida já possuía um currículo invejável em termos de leitura de quadrinhos. Ele lia como quem engolia as páginas, aglutinava quantidades absurdas dos estimados gibis. De manhã, de tarde, de noite, não tinha hora. Andando na rua ou durante o almoço.

E foi no almoço que ele viu a toalha! Aquela toalha de mesa vermelha quadriculada que cobria o vidro sob seu prato de comida era mágico. Ele não pensou duas vezes, puxou a toalha, derrubando no chão o prato com comida e tudo, amarrou no pescoço o artefato místico e com a heróica certeza dos predestinados, tacou-se janela afora.

O garoto sacoleja um pouco, mas logo pega o jeito. Parece que nasceu para isso. Ele voa, sua toalha de mesa se debatendo no pescoço, tamanha sua velocidade.

Porém o vôo não durou muito. Olhando para baixo, ele vê uma senhora atravessando a rua lentamente enquanto a poucas dezenas de metros um carro virava a esquina numa velocidade que fazia o ato de frear, uma opção inútil, e até incauta.

Pendendo todo o seu quase nulo peso para frente, ele zuniu, como uma bala para vencer o espaço até a velha senhora. Tirou a transeunte desatenta de perigo no último segundo, mas olhando para o carro que havia passado por eles, viu que o motorista com o susto havia perdido o controle e o veículo iria capotar a qualquer instante!

Dizendo “Tome mais cuidado ao atravessar a rua, senhora!”, deixou-a em segurança na calçada e foi em direção ao carro. Tentou segurá-lo pelo pára-choque, mas este logo cedeu e ficou em sua mão, saindo do carro. Tentou o vidro traseiro, fincando os dedos nele pás o mesmo aconteceu. O carro somente parou quando o garoto o invadiu e furou o chão, prensando os pés contra o asfalto.

Cansado, mas feliz consigo mesmo pelos seus feitos, avisou ao motorista “Não precisa dirigir tão rápido na cidade. Podia ter machucado alguém!” e saiu pela porta de trás.

Ouviu tiros e percebeu sem demora que o carro havia parado em frente a um banco e que este estava sendo roubado! Podia ouvir a polícia lá no final da rua, mas até a sua chegada, poderia ser tarde demais para os reféns.

Entrou no banco quebrando as janelas do andar de cima que era aberto para o térreo e se mostrou, de peito aberto, sobre uma bancada. Os bandidos de início não entenderam, mas depois riram dele e atiraram até suas armas estarem descarregadas.  Os risos logo se tornaram olhares incrédulos quando viram o pirralho ainda de pé e desafiador. Com um pequeno esboço de sorriso, o jovem lança laser dos olhos contra as armas dos assaltantes, inutilizando uma a uma. Com os reféns agora seguros, o moleque pega os três ladrões pelo colarinho e voa com eles para a polícia do lado de fora.

No exterior do banco, o fedelho pousa no meio dos policiais e larga os bandidos, mas estranha todos ao seu redor estarem olhando para cima. Virando seu rosto para o céu também, ele vê ao longe quatro grandes mísseis se aproximando em alta velocidade.

Tentando sair do choque, ele balança a cabeça e alça vôo novamente. Ainda ao longe, ele destrói dois mísseis com seus raios, transformando seus destroços em mera chuva de pó. Fechou os olhos e atravessou o terceiro com o próprio corpo, explodindo-o também em pedaços.

Teve que dar a volta e se apressar muito para chegar ao último, dava pra ver lá do chão seus dentes rangendo e os olhos fixos no objetivo. Chegou então ao aparato militar e sentou nele, quando achou os controles enfiou a mão e arrancou um enorme emaranhado de fios.

O míssil caiu então, desativado e inofensivo, com o rapaz deitado em cima dele. Os grupos de policiais, os poucos civis que se aproximaram incrédulos e inclusive os bandidos que foram capturados se aproximaram cautelosamente do menino, o receio, é claro, mais por causa da bomba na qual o garoto repousava exausto de olhos fechados, do que nele mesmo. Enquanto as pessoas chegavam mais perto, passo a passo, o guri ouve um barulho, um chiado muito distante. Seus olhos se abrem vagarosamente e seus ouvidos atentam.

Ele se levanta, bate a poeira das suas roupas e levanta vôo, acompanhado de uma salva de palmas e urros de felicidade. O pequeno herói voa por alguns minutos numa velocidade incrível até ver a fonte do estranho chiado no horizonte. Uma criatura gigante, horrenda, com cara de lagosta, quatro pernas, seis braços com garras, mãos e tesouras nas pontas. Olhos por todos os lados do rosto, cada olho soltando um raio de uma cor diferente. Quando o garoto, enojado com a escamosa criatura se aproxima, precisa se afastar de novo para pescar um prédio, cheio de pessoas que o diabólico monstro havia arremessado.  Pôs o prédio de volta no solo, no meio de uma rua distante e, com os braços esticados acima da cabeça, alavancou-se contra o inimigo como se fosse um dos mísseis que acabara de destruir.

Porém o plano não deu certo, atingiu a carapaça e foi jogado para longe no impacto. Tentou acertá-lo com o laser dos olhos, mas também foi em vão, pois estes eram repelidos pelos raios do próprio monstro.

O garoto pára no ar, pensando, o monstro uiva loucamente, deliciado com a sua vitória. O pequeno então faz a única coisa que lhe restava fazer, ele precisava salvar as pessoas.

Fazendo um arco, ele voa para baixo, até as pernas da criatura. Agarra e faz força para cima. Muita força. Lentamente, uma perna sai do chão, depois outra, o monstro começa a se debater, mas de nada adianta, o garoto não larga e continua sua escalada. E continua. E prende a respiração após uma longa aspiração.

Os dois sobem, sobem, sobem e chegam ao espaço, e continuam e quando o jovem acha que foi longe o bastante ele gira, gira, gira e larga o monstro, boiando no vácuo para longe da terra. O moleque sabia que ia para uma viagem sem volta, tinha consciência de que o retorno era impossível. Usou os últimos sopros de ar em seus pulmões para se impulsionar na direção do seu planeta, mas não foi o suficiente. Sua força se esvaiu, seu ar acabou, cada musculozinho destreinado do seu corpo simplesmente desistia. Ele fechou os olhos.

À noite, uma criança, da sua casa na árvore, faz um pedido a uma estrela cadente que se desintegra na atmosfera. Ele que ter super-poderes.

A CRISE NO MUNDO DOS QUADRINHOS

maio 7, 2010

Texto de Mark Miller na edição #1 da mini série Red Horizon do Savage Dragon. Bem instrutivo e atual apesar de escrito faz pouco mas de 10 anos.
Traduzido por mim e revisado pelo Luan.
Segue o texto:
———

Há algum tempo, nós nesse ramo sentimos uma pequena queda nas vendas – só pro caso de você não ter percebido – e é claro, quando algo ruim acontece, você normalmente pode ter certeza de que as pessoas vão começar a pôr a culpa umas nas outras. Bem, foi o que eles fizeram. Especuladores, fãs, companhias, distribuidores, criadores, eles todos começaram o que se pode chamar de jogo da culpa. É claro que todos podem carregar um pouco do fardo da culpa, se estiverem dispostos, mas eu tenho acredito fortemente que só há um único e verdadeiro vilão nesse pequeno mistério… ah, não, eu não vou entregá-lo assim tão fácil. Ao invés disso, vamos ver o que você consegue deduzir da forma como esta história se desenrola:
Há muito, muito tempo, em uma loja de quadrinhos perto de você, um garotinho chamado Bobby entrou para comprar o seu primeiro quadrinho. Ele passou pelo balcão a caminho dos fundos da loja até que ele ouviu uma voz sussurrando, “Ei, garoto…” Bobby virou a cabeça, com medo de ter quebrado alguma regra da qual ele não estava ciente. A voz pertencia a um jovem por volta dos seus dezesseis anos vestindo uma camisa preta desbotada do Bob Marley. Era a figura típica do rastafári, fumando um grande cigarro de haxixe e com uma coroa de folhas de Marijuana saindo de suas costas. Se Bobby tivesse idade o suficiente pra saber o que era Marijuana, ele provavelmente não se perguntaria por que os olhos daquele jovem pareciam tão cansados no meio da tarde. A voz continuou. “… você tem que deixar a sua mochila aqui.”

“Ah, desculpe.” Respondeu Bobby, um pouco por ter mesmo desrespeitado uma regra que ele não conhecia.

“Não me parece que você vá roubar alguma coisa… mas são as regras.” Um pequeno sorriso apareceu do canto da jovem boca de Bobby. Já mais calmo, ele olhou além da cabeça do atendente da loja para a parede cintilante atrás dele. Lá, em filas cuidadosamente alinhadas, embalados em plástico, estavam livros extravagantemente decorados cujas capas gritavam “olhe pra mim!! sou eu quem você quer!!” E então ele olhou. Enquanto seus olhos vagavam pelo canto de cada embalagem, ele viu pequenos adesivos amarelos de preço anunciando o valor de cada um dos livros contidos dentro. Dez dólares, oito dólares, vinte dólares, e alguns deles chegavam a cento e cinqüenta dólares. Os olhos de Bobby vacilaram, quando seus olhos atingiram o chão, com as mãos chegando ao bolso, ele o puxou de dentro pra fora. Ele abriu a mão, e contou: cinqüenta… setenta e cinco… oitenta e cinco…noventa e cinco…noventa e seis. Noventa e seis centavos. Não era exatamente um dólar, e certamente não eram dez dólares, menos ainda cem dólares. Bobby não estava feliz com a situação.

“Eu não achei que elas iriam custar tanto…” disse ele, mostrando seu desapontamento para o jovem atrás do balcão, “eu não pensei que-“

“Que?”, o atendente interrompeu, embora ele não estivesse certo de ter interrompido alguma coisa, “Que qui cê disse aê?”

“Eu disse, eu não pensei que quadrinhos fossem tão caros”, Bobby repetiu. O jovem virou a cabeça para ver o que o Bobby estava olhando; ainda que ele soubesse exatamente o que estava pendurado na parede atrás dele por quatro dias da semana depois da escola, e provavelmente até nos dias em que ele não estava lá.

“Ah… ah, não, esses são os itens de colecionador. Tem um monte de quadrinhos baratos bem atrás de você.” Bobby se virou para as prateleiras de quadrinhos, cada uma implorando para ele da mesma forma que as plastificadas estavam. Por alguma razão, entretanto, elas pareciam não ter a mesma aparência magnífica das que estavam atrás do Bob Marley. “Você nunca comprou uma revista em quadrinho antes?”

“Hmm mm” Bobby zumbiu um ‘não’ quase inaudível à pergunta.

“Bem, dexeu te mostrar algumas então. Beleza?” O atendente se recompôs enquanto pulava da sua cadeira e por cima do balcão. ‘Ele não deve estar tão cansado quanto parece’ Bobby pensou consigo mesmo. O tour começou com as revistas que eram lançamento, uma pequena prateleira com pouco mais de um metro transversalmente disposta sob três camadas de revistas novinhas, cada uma gritando aos alegres olhos de Bobby. Super-Homem. Batman. Homem-Aranha. O Incrível Hulk. Bobby conhecia todos eles, mas nunca pensou realmente neles como personagens de quadrinhos, só como séries de TV. Ao lado das revistas mais novas, havia caixas do que o vendedor chamava de “velharia”. Haviam realmente muitas pra se olhar, então essa parte do tour foi breve. Depois veio uma estranha prateleira de madeira cheia de quadrinhos que estavam meio surrados. Bobby então se lembrou do ferro-velho em que seu pai o havia levado naquele ano e lembrou-se do pai ter lhe falado que ‘só porque algo não está perfeito, não quer dizer que não serve pra nada’. Aqueles carros, ele imaginou serem como as revistas na caixa de madeira, “essa é a caixa dos que custam 25 centavos.”, o tour continuou. Seguindo pelas paredes estavam filas de revistas que estavam quase perfeitas, mas não tanto quanto os que estavam na prateleira dos lançamentos. Com estas, o tour estava concluído, Bobby pensou. Pra dizer a verdade, ele provavelmente não teria notado se o garoto da camisa do Bob Marley continuasse falando algo, porque uma destas revistas estava gritando muito mais alto que qualquer outra. Estava gritando tão alto que Bobby provavelmente não notaria se uma bomba explodisse bem na sua cara naquele instante.

Ele esticou sua pequena e rosada mão e segurou no canto de uma revista que pegou seus olhos e se recusou a largar. ‘X-MEN’, lia-se no título e abaixo disso uma estranha mulher negra sendo rasgada e transformando-se numa estranha e melancólica besta… Ela o deixou fascinado, as linhas limpas e simples movendo-se em conjunto para formar sentimentos que foram concebidos como uma forma de arte que era completamente nova pra ele. Página após página, ele olhou para os desenhos, maravilhado e cores que penetravam os seus olhos, cativando-o e literalmente viciando a mente do garoto na história. Quase babando de alegria, Bobby sabia que tinha achado aquele quadrinho, que poderia pagar com o que sobrou da sua mesada semanal e ainda comprar uma casquinha de sorvete de chocolate na sorveteria ao lado.

Ele marchou até o balcão e sacou o seu dinheiro, jogou os sessenta e cinco centavos, preço de capa, e forçou intensamente um riso ao Bob Marley. “Já achou uma que você gosta?”, disse o Sr. Marley, então ele pegou a revista que estava de lado para ver melhor, “Ah, hey, essa aqui é boa. Paul Smith, ele é o cara! Aposto que essa vai virar item de colecionador. Aqui, deixeu te dar uma sacola e uma embalagem pra você manter ela inteira…”.

‘Um item de colecionador’ pensou Bobby, “wow.”. O jovem levou a mão até debaixo do balcão e sua mão voltou com uma das embalagens que proclamavam as revistas da prateleira de cima párea a realeza. Ele abriu e com cuidado, escorregou a Uncanny X-Men de Paul Smith para o seu lugar de direito.

“Aqui está.”

“Obrigado – ” o Bobby disse com um sorriso enquanto pegava a sua mochila e se dirigia à porta, então, pensando na sua mesada, que vinha num cronograma regular, desde que ele não tacasse fogo no cachorro ou algo do gênero, ele se virou e complementou, “- até semana que vem!”
Uma década depois, Bobby passou pelo colegial e tinha uma bela coleção, e alguns lapsos na mesma, que ele prontamente recuperou nas edições da ”velharia”. Ele comprava mais ou menos de quatro a seis revistas por semana na loja. Ele percebeu que os livros subiram de preço drasticamente nos últimos anos, mas ele continuou fiel ao fantástico mundo, ou seria melhor dizer, ‘mundos’ dos quadrinhos. Parecia que para cada livro que ele pegava, havia mais um que ele queria para sua coleção. Maravilhosos novos artistas, mostrando a Bobby novas direções que ele nunca tinha imaginado na arte. E ainda assim as lendas continuavam trazendo o melhor nos quadrinhos todo mês. Bobby estava no paraíso e ele queria que durasse para sempre. Não durou.

Logo, Bobby começou a perceber mais e mais quadrinhos nas prateleiras todo mês. Sua leal prateleira de um metro com ‘lançamentos’, aparentemente foi injetada com esteróides, estava grande o suficiente agora para ocupar uma parede inteira da loja. Seria maravilhoso ficar horas e horas olhando para os maravilhosos novos trabalhos de arte, se fossem tão maravilhosos assim. Seria glorioso sentar e ler as fascinantes novas histórias, se elas fossem tão fascinantes assim. Elas não eram nenhum dos dois. Na verdade, elas eram simplesmente o oposto; os novos artistas eram só uns moleques que há cinco anos não conseguiriam nem um trabalho em Malibu, e mesmo assim aqui estavam eles, em alguns dos títulos que o Bobby tanto amou por toda sua vida. Não somente isso, mas a história ficou tão óbvia, juvenil, e por vezes tão ruim que ele não conseguia passa pela maioria das revistas sem perder o pouco do interesse que ainda lhe restava. Os quadrinhos haviam perdido algo, talvez tenha sido a inocência. Talvez tenha sido a consistência do esforço de quem os fez. Seja lá o que foi, estava ficando difícil, para Bobby, uma obrigação até, achar uma revista que ele quisesse comprar. Até a sua lealdade a alguns dos antigos favoritos se esvaiu quando ele viu que eles tinham perdido o entusiasmo no qual um dia ele havia saboreado.

Bobby tentou se divertir numa ida à loja de quadrinhos mais uma vez, até levou com ele o seu jovem sobrinho, Justin, pensando que talvez pudesse reviver seus dias de infância pelos olhos do garoto. Olhando em volta, ele pegou uma revista que costumava estar entre suas favoritas e a abriu. O olhar de desgosto apareceu em sua face quando ele descobriu que a linda arte na capa não era a mesma no interior da revista. Esse tinha sido o limite, a última gota havia sido derramada. Não é que não houvesse bons livros pra se comprar, só que se tornou um grande esforço achá-los no meio do palheiro de merda que aparecia toda semana. Bobby estava entristecido e com raiva, com certeza ele não queria ficar nem mais um segundo na loja. Ele virou para o seu sobrinho e perguntou se havia algo que ele queria. “Tem muita coisa…”, pronunciou Justin, “eu não consigo ver as figuras.”.

Bobby entendeu perfeitamente. Onde uma vez ele havia entrado nessa mesma loja e vagado pelas gloriosas capas e a arte pura dentro delas, agora ele via olhares distorcidos, caras zangadas e detalhes inúteis e supervalorizados que tentavam quebrar as barreiras de tudo ao seu redor. Ele não agüentava mais. Pegando o sobrinho pelo braço rechonchudo e indo em direção à porta, ele parou para olhar para o vendedor; o garoto magrelo do Bob Marley foi substituído por um garoto mais velho com óculos largos e um formato que parecia uma tartaruga. “Vejo vocês semana que vem!” O garoto tartaruga despediu-se carinhosamente.

Bobby respondeu, “Não, eu receio que não.”

FIM

A SENSACIONAL ALICE

dezembro 7, 2009

     Alice era uma menina sensacional. Daquelas que dão torcicolo quando passam. Dezenove aninhos, pele lisinha, olhos verdes saltitantes e uma suposta virgindade, que era causo pra assunto por horas entre a galera da rua. Havia os céticos de um lado e os bíblicos. Os céticos nem davam bola pra esse papo de hímem. Logo a Alice? Qualquer outra vá lá, mas a Alice? Já os bíblicos tinham fé. Precisavam crer que existia um propósito maior e que ela ainda estava selada e lacrada.

     Quando questionada sobre o assunto, Alice apoiava que era virgem e ainda soltava a bomba. “Eu só vou me entregar quando casar.”

     Um dos garotos do bairro não e se agüentou e propôs logo. Na verdade, mais por curiosidade que por amor. Queria ver a Alice, como a Alice devia ser vista. À olho nu. À corpo nu. Ele, bom partido, boa família, pescou o interesse da Alice e casaram-se. Reza a lenda que a noite de núpcias durou 11 dias. Os três primeiros o marido passou rezando devido a uma promessa. Os quatro últimos ele passou no hospital, caso clínico de inanição. Passara os outros quatro dias sem comer. Comida.

     Por desgraça do destino, três messes depois o marido de Alice morreu. Acidente de avião na Alemanha. Foi visitar o país a negócios e voltou numa cama de madeira. O enterro foi um inferno para a Alice, tinha mais gente ao redor dela do que do defunto e nunca se viu tanto marmanjo fingindo choro. Familiares do presunto e da Alice, amigos de ambos, transeuntes, todos tentavam agradá-la. A vaga estava aberta novamente. Mas ela foi incisiva pros mais persistentes. “Só casando.”

      E é claro, como era Alice, a vaga foi rapidamente preenchida. E Alice também, foi preenchida. Um casamento sólido, pacífico, e monogâmico. Tinha tudo para ser eterno e foi, enquanto durou. Eterno por seis meses e dois dias. O divorcio foi pedido pelo marido que alegou em segredo para o advogado da Alice, “não da pra acompanhar. É todo dia, toda hora, a gente não desliga o ar-condicionado faz dois messes. Aliás, acho que é a primeira vez que eu saio da cama essa semana.”

     Mas Alice não se deixou abalar. O advogado, o pai do advogado, amigo de infância, seu dentista, corretor de imóveis, músico. Alice casou-se e casou-se. Com o recato de uma virgem, nunca fez “aquilo” fora do casamento. Assim lhe foi ensinado.

     Hoje, Alice mora na França, muito bem obrigado, com seu marido Jacques. Setenta e seis anos e com 37 divórcios, 8 funerais e 3 fugas. Jacques tem vinte e dois anos e é sustentado pela inacreditável pensão que Alice recebe.

     Jacques recentemente renovou o seu passaporte e planeja secretamente uma viagem para o Alaska.

OBRAS DE RAUL BRANDÃO

novembro 16, 2009

     Em português:

A_Ilha_Azul.html
Mulheres.html
o_misterio_da_arvore.html
Os_Pobres.html

PEÇO PERMISSÃO PARA PEQUENA POSTAGEM

outubro 22, 2009

     O texto mais abaixo me foi enviado por e-mail já faz algum tempo e de acordo com o título, seria o maior trava-língua do português. Do tipo “três tijelas de trigo para três tigres tristes” e aquele outro negócio com os mafagafinhos que eu esqueci como é.

     Eu tinha visto em algum lugar que esse texto é na verdade um trecho de um livro todo escrito nesse formato. Como eu não achei mais nada procurando esses dias, fica a dúvida, inclusive, sobre a autoria.

     O que é inegável é que deve ter dado um puta trabalho.

     Ah, se alguém quiser se acusar aí de ter escrito isso fique a vontade. Eu só editei os parágrafos da maneira que eu achei mais consistente pra não ficar um blocão de texto. Boa leitura.

 

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     Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente, pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam elas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se.

     Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo… Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. Paris!Paris! Proferiu Pedro Paulo. Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, papai partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo perfeita permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: Pediste permissão para praticar pintura, porém,praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences. Partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém,passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios.

     Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando…” Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar… Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.

OBRAS DE LUIZ VAZ DE CAMÕES

outubro 21, 2009

Em italiano:

I_Lusiadi.html

Em português:

Cancoes_e_Elegias.html
Os_Lusiadas.html
Redondilhas.html
Sonetos.html

LANCE, THE WASTELANDER

outubro 17, 2009

     “Lance never really wanted to disappear from the world. He didn´t quite disappeared, he got invisible. Well, he didn´t actually got invisible either, as he would find out in one of his early travels, he discovered he had the ability to create an electro-magnetic field around his body which deflected rays of light away from him, giving people the impressions that there was no Lance, whereas Lance was.

     Anyway, Lance didn´t ask for it.

     He had a nice life and was the only son of a respected member of the tribe. Ask, Lance´s father, was the best repairman in the settlement. He had all the experience that lacked in his son, but the discipline and talent was shared by both.

     After the day Lance was cast away from the tribe, people would still talk about the day Lance and his father fixed up a whole airplane. It was a bit of a local legend, really. No living person today saw that airplane, but if you ask around, even though the Fixers won´t confirm it, they´ll never deny it.

     It was just sometime after our character first began to fade away, and he even started thinking he was getting the hang of it, that his life changed from water, to saltwater.

     At that time, they also had the every-year-festival that we still hold to this day, the fair, as the Ressurectors used to call it, attracted folks from everywhere, from local communities to distant cities. That year, the fair was held here. Those people gathered to show their inventions and constructions and brag about them, the objective was to select the one that could improve people´s life the most.

     Lance´s family were a big attraction for some years with their repair workshop and that year, since they were in their homeland, they had something very special to present. They had found some car parts and intended to rebuild it in front of the audience! Ha! What a presentation it was.

     They were in the biggest tent, well, at least it was the most crowded one. Crawling with watchers. Lots of Learners. It was near the end of the presentation when he faded from the stage. Disappeared. It was hell. There was a great commotion , the whispers began but it wasn´t long for them to become shouts of ‘mutant, mutant’ when Lance showed up again near the tent exit.

     The confusion spread like wild fire, chaos broke loose. Before Ark could step down the stage, someone hit his son´s head with a piece of metal and carried out, not that he could have done anything anyway. There was just no way to run across the tent with all those people there.

     Not even ten minutes have passed and Lance was the new attraction, not the Repairers. Carried to the middle of the fair, he was judged right there. The oldest member of the Ressurectors, Mr. Rainman as everyone called him, had been summoned to be the judge. Lance had a big headache and was bleeding a lot from the back of his head, his legs shaking.

     He didn´t say a word.

     ‘You have to understand young man, we are Ressurectors. We try to understand and recreate the old ways as they were. There is no room for the new ways here. No room for you.’ Mr. Rainman told the boy. Quite unnecessarily, he knew that. It was like he had forgotten he was one of them a few minutes ago.

     His family shouted, screamed, intimidated and then begged, but to no avail. The elder had decided.

     ‘We are not monsters’ the elder told the youngling privately. ‘We don´t want you dead, we just want you out’ Which was pretty much the same for at that time, the wastelands weren´t any safer than today. But out he was. They gave him some money, food, water and a gun. Dressed him for the harshness of the wastes and sent him out. Even the outsiders knew, no, they felt, it was a sad time for the village.

     The boy almost didn´t have time to speak to his family, that were crying in the frontline of the watchful mob as Lance gave the first steps to the Great Nothing.”

     The man halted his narration. The kids around him still had they eyes on him as if they were attached. Behind him, the statue of Lance, the unseeing. He was sitting beside his feet.

     “But” one of the kids asked “If that´s the story of Mr.Lance, did he ever came back here? He has to know that the settlers are sorry for that. Did he ever manage to see the statue?”

     “Oh, my boy…” The man slowly raising himself “He did come back and he knows of the statue. He holds no grudge with the tribe. He understands it was all the elders knew how to do, since it was the only thing they were taught to do with stranger people.”

     He got up, aligned his overcoat and hat and, turning to the kids, with a smile on the face, he said, “but he could never stay here for too long. Since he was exiled, this is not his home anymore. The wastes are. Goodbye, kiddos!”

 

     He disappeared in front of his audience. The kids, startled, couldn´t say a word.

     Anyway, nowadays, who would´ve believed them? Believed the Lone Exiled was still watching over the tribe.

O ARCANJO DE PEDRA

outubro 2, 2009

     Há muito tempo eu vinha procurando por um mortal que pudesse abrir uma passagem para o seu mundo. Meu senhor começava a ficar aflito e sempre resmungava que nos tempos antigos havia mais portais e eu sabia que sua irritação poderia cair a qualquer momento sobre mim. Estava ficando preocupado, até encontrar um tal de Sharbara, um aprendiz da arte negra.

     Ele não pediu muita coisa em troca, queria apenas poder para se tornar um grande necromante, não pediu um tratado nem ritual algum para confirmar o acordo – “os mortais estão perdendo a malícia” – dizia meu senhor. Sua ansiedade cada vez mais aumentava, pois o senhor queria que os velhos tempos voltassem. Dizia que o novo Mestre nos esquecera e não o agradava tanto quanto o antigo, que fora o mais cruel e ganancioso que existiu por esses planos, segundo ele. Soltá-lo seria uma tarefa trabalhosa, mas recompensadora.

     Os nossos planos, meu e de meu senhor, eram de chegar a Kazhmound e procurar as duas chaves que libertariam o Mestre. O humano nos abriu passagem e nos concedeu vestes, provisões e montaria. Em troca recebeu seus poderes, pois meu senhor é generoso e sempre retribui um favor. Diz que em tempos difíceis, sempre devemos trazer mais alguém para o nosso lado. Estávamos no meio das planícies desérticas do Reino Negro e deveríamos rumar em direção à Phyrexia, lá haveria um templo onde nós poderíamos nos hospedar. Ao chegarmos, percebi a insatisfação do meu senhor, o seu olhar repugnava a cidade. Ele me contou como aquele lugar havia sido palco de grandes preparações para guerras, mortes e destruição. Mas hoje era monótona, pois seus líderes não cobiçavam poder e não se importavam com as sombras.

     O templo era grande e muito bem trabalhado, se mostrava imponente diante das outras construções da cidade, sendo até mais belo que o castelo. Nos portões do templo haviam figuras entalhadas que me lembravam o meu lar. Entramos e pedimos para falar com o Supremo-Sacerdote e fomos atendidos. Um servo nos encaminhou à sua sala. Ao passar pelos corredores percebi que nas paredes havia pequenos gárgulas e mais desenhos do meu lar e me senti realmente em casa. A sala do Supremo-Sacerdote era grande e oval. Ele se encontrava de pé nas escadas de um altar. Tinha um ar altivo e olhar severo, o que não incomodou nem um pouco meu senhor que se dirigiu a ele dizendo:

     – Somos enviados das sombras e viemos em busca de recursos para seguirmos ao oeste e libertar o antigo Mestre. Assim nascerá uma nova era.

     O Supremo-Sacerdote riu. Fora a risada mais curta de sua vida.

     Após nos banquetearmos com suas vísceras, meu senhor pegou algumas velas e com o sangue do Sacerdote desenhou o símbolo de sua linhagem, um grande morcego, e começou a recitar algumas palavras. Logo, um portal se abriu e dele saíram doze criaturas. Grandes e fortes, tinham pele escura, olhos pequenos de cor amarelada e estavam enrolados em correntes. Meu senhor havia invocado seus criados para nos proteger de qualquer ameaça.

     Com um quartel-general e uma pequena tropa, passamos para o próximo passo. Encontrar as chaves. O senhor sabia a localização das duas, uma estava no fundo do oceano e a outra em um templo no reino de Hylius. Pediu-me para procurar um meio de irmos ao fundo do mar, mas eu tive uma idéia mais prática. Corromperia alguém do povo do mar para que trouxesse a chave e minha sugestão foi aceita. Peguei a orbe e comecei a procura, encontrei um grupo de tritões mercenários e os convoquei para uma pequena reunião nas praias de Phyrexia. Logo que chegaram, expliquei o que deveriam roubar e o que ganhariam com isso, eles então partiram em sua missão.

     Passamos cinco messes de mordomia no templo. Éramos bajulados o tempo todo pelos sacerdotes, uns porque nos admiravam e outros porque nos temiam. Até que recebemos a visita dos tritões que retornaram com o nosso pedido. O Tridente de Iras. Um dos mais valiosos artefatos dessa terra (fato que, felizmente os homens-peixe desconheciam). Pegamos o tridente e como retribuição nós os demos a honra de ser o nosso banquete. Não queríamos que alguém descobrisse quem os contratou para esse trabalho, então os matamos. O senhor nos explicou que esse Tridente abriria a cripta onde o Mestre se encontra e que agora deveríamos ir à busca do medalhão que o libertaria de seu túmulo. Pediu então para trazermos um ser humano ou qualquer outro tipo de humanóide que estivesse em perfeito estado. Trouxemos um homem mesmo, este esbanjava saúde. Com este homem, o senhor fez um ritual para transformá-lo em um pequeno diabrete. Seu plano era ir para Hylius e mandarmos o diabrete roubar o medalhão do templo.

     Assim que o pequenino voltou, nós fizemos os preparativos de viagem e partimos, eu, meu senhor e o diabinho em uma carroça e os doze montados a cavalo. Saímos da cidade à noite, cruzamos o grande deserto do Reino Negro em um mês e vinte dias. Quando chegamos ao portal dos Crânios Brancos, um forte na fronteira com o reino de Asura, fizemos uma parada para reabastecer e seguimos viagem pelas dunas do Mar Desértico sem muitas paradas. Meu senhor estava com pressa, temendo alguma intervenção da luz. Após algum tempo passamos a acompanhar o litoral, o que indicava que estávamos na estrada para Stormgrade. A partir de agora deveríamos abandoná-la e redobrar nossa atenção. Entravamos nas terras de homens bons que seguiam o rival de nosso Mestre. Logo o deserto acabou e passamos a caminhar sobre o chão verde. Depois de entrarmos em uma floresta, o sol brilhando cada vez mais, parecia tentar nos afugentar, mas prosseguimos e novamente sem paradas. Atravessamos aquelas terras em um mês e finalmente chegamos à fronteira com Hylius, ali mesmo montamos acampamento e à noite enviamos o diabrete para sua missão. Meu senhor ordenou que ele nos encontrasse nas montanhas que separavam Sephantia do reino élfico. Nós iríamos continuar viagem, pois ficar parado seria perigoso.

     E assim foi, prosseguimos por quase quatro longos messes até chegarmos no local do encontro. Para nossa surpresa o ladrãozinho não havia chegado. Ficamos preocupados e montamos acampamento para esperá-lo. Cinco dias se passaram e começamos a temer o pior, mas logo olhando para o horizonte vimos uma pequena figura voando depressa. Meu senhor riu, dizendo:

     – Diabo infeliz! Achei que estaria morto e nossos planos fracassados.

     Mas de repente a aflição voltou a nos atingir. Vimos o diabrete ser alvejado em seu vôo por uma flecha vinda da floresta abaixo. Os doze partiram imediatamente em direção ao pequeno, eu fui voando (minha raça é diferente da do meu senhor, eu possuo um par de assas com plumas negras e pareço com um abutre) e meu senhor caminhou. Avistei um grupo de elfos vindo a cavalo pela estrada, mas os doze logo foram ao encontro deles e rapidamente os exterminaram.

     Pousei e fui em direção ao corpo. Estava morto, mas isso não me importava, pois achei o medalhão pendurado em seu pescoço. Tirei e o levei ao meu senhor, que ficou contente. Agora nós finalmente podíamos cumprir nossa missão. Partimos para as terras geladas. A partir daí a viagem ficou tensa.

     Apressado, enrolei o Tridente e o amuleto em um manto, peguei todas as provisões que ousava carregar, desprendemos os cavalos e deixamos a carroça para traz. Agora íamos todos a cavalo, correndo numa velocidade anormal. Conseguimos atingir a cidade de Hasgarath em quinze dias. O lugar era bem rústico, para nossa sorte o portão estava aberto e ninguém pediu para nos identificarmos. Fazia um frio que conseguiria apagar o fogo do próprio inferno. Meu senhor nos dissera que esta era a última cidade que veríamos, pois depois daqui, só gelo estaria no nosso caminho. Devíamos ser rápidos. Fomos ao mercado mais clandestino da cidade e recarregamos todo nosso estoque de provisões, além de comprarmos cobertores e roupas de inverno. Vendemos os cavalos e compramos uma carroça que seria puxada por grandes e estranhos bovinos. Partimos novamente, dessa vez para o monte Arreat, na Baldaquia. Nós não sabíamos que o pior momento da nossa viagem estava por vir.

     Viajamos por três semanas, ainda havia árvores e vida a nossa volta. Quando avistamos a cordilheira Monshaene, fizemos nossa primeira parada. Um erro fatal.

     No meio da noite, um grupo de cinco homens, altos e robustos, portando grandes machados, nos atacaram. Enquanto os doze travavam uma batalha sangrenta, eu e meu senhor fugimos, deixando a carroça para traz. Corremos a noite toda e alcançamos as montanhas pela manhã. Resolvemos nos abrigar em alguma caverna e esperar sinal de vida dos doze. Algum tempo depois avistamos oito deles vindo na nossa direção. Quando chegaram relataram que “os bárbaros” (chamados assim pelos mortais) sabiam de nossa presença e nosso objetivo, pois enquanto lutavam com eles percebeu que alguns falaram em demônios e algo sobre soltar o mal no mundo. Aquilo foi como uma facada no peito. Decidimos nos apressar e só descansar quando conseguíssemos soltar nosso Mestre.

     Nove dias depois eu não agüentava mais. Os doze, que agora eram oito, pareciam não terem feito nenhum esforço durante esse tempo e o meu senhor estava cansado mas perseverava. Ordenou que um soldado me carregasse e assim prosseguimos. No décimo segundo dia desde que partimos das montanhas, começamos a perceber que estávamos sendo seguidos, mas uma semana se passou e nada aconteceu. Os soldados se revezavam para me carregar, até que no vigésimo terceiro dia, voltei a correr com eles. Passamos mais treze dias assim, quando os ataques começaram a acontecer. Mais de dez homens nos atacaram. Meu senhor prosseguiu e junto dele, eu fui, seguido de mais cinco, deixaram outros três para segurar nossos caçadores. Continuamos e após mais dois messes de corrida pesada, avistamos o monte Arreat. A última surpresa nos esperava ali.

     Os dez homens se encontravam na base da montanha, ali, à nossa espera.Empunharam suas armas e avançaram contra nós. Meu senhor ordenou que eu voasse e soltasse o Mestre enquanto eles impediriam os bárbaros.

     Levantei vôo, mas um deles ainda tentou me acertar arremessando seu machado em minha direção. Senti passar raspando por mim e o vi ficar na rocha à minha frente, foi um belo incentivo a voar mais rápido. Cheguei à metade da subida e resolvi fazer uma parada. Pousei e observei a situação de meus irmãos. Tomei um susto ao ver que um dos humanos subira a montanha e estava me alcançando. Fiquei sem reação ao vê-lo erguer seu machado sobre mim. Quando ele estava para desferir o golpe eu voltei a mim e desviei com um salto para a esquerda. Ele tentou me atingir mais duas vezes e eu me esquivei, mas o quarto golpe me acertou, decepando uma de minhas assas. Tomado de uma imensa fúria, desenrolei o Tridente e parti em direção ao homem acertando-o com a arma e empurrando-o para fora da montanha. Subi o resto do caminho escalando. O ferimento sangrava muito, mas eu tentava esquecer a dor, pois não haveria de desistir tão perto de completar o objetivo. Finalmente encontrei um imenso portal de pedra. Era liso e possuía três buracos. Encaixei o Tridente no portal e rodei. Ouvi um pequeno barulho e a porta se abriu escorregando para a esquerda.

     Entrei na cripta lentamente. Estava escuro e eu não tinha tocha. Sou um dos poucos diabos que não enxergam na escuridão. Conjurei então uma pequena chama e percebi que a escada era longa. Desci e entrei em um cômodo, dei alguns passos e me deparei com uma cena horrível. Tamanha foi minha aflição que a chama se apagou. Comecei a gaguejar implorando pela minha vida, mas não recebi resposta. Estranhei e, tomando coragem, reacendi o fogo. Ri de mim mesmo por tamanha estupidez. Na minha frente estava um grande anjo de pedra ajoelhado em cima de um altar com uma espada fincada no chão. Pensei no motivo para este ser estar ali, no meio do caminho para o túmulo do Mestre. Averigüei o altar e percebi um buraco com uma estranha inscrição embaixo. Minhas pernas tremeram quando percebi o que se passava. O grande Mestre de quem meu senhor tanto falara era um servo da luz. Não era possível. Mas então eu pensei em todo sacrifício que eu e meus irmãos tivemos e então, contra a minha vontade, coloquei o medalhão na fenda. O mundo estremeceu nessa hora. O anjo começou a se mexer e uma intensa luz invadiu o lugar. Ele se pôs de pé e olhou para mim. Seus olhos pareciam estar me atravessando. Juntei minha vontade e lhe disse:

     – Bem vindo ao mundo novamente Mestre das Sombras, eis aqui um servo fiel que veio te libertar.

     Ele desceu do patamar e veio em minha direção. Pegou-me pelo pescoço e me ergueu contra a parede. Foi a primeira vez que eu me arrependi em minha vida.

 

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     O texto acima foi escrito a alguns anos por um grande amigo meu, Dimas Vieira. Apenas digitado por mim. Esses dias ele me concedeu o direito de reproduzí-lo aqui no blog. Quem sabe assim ele não se anima a fazer um segundo capítulo? Ou quem sabe aceita o meu convite de escrever aqui também.

     Valeu Dimas, abração!!

MORTOS-VIVOS – ZUMBI, O APOCALIPSE PARTE 1

setembro 28, 2009

     Gosto forte de sangue na boca. Ele se levanta e olha para si mesmo. Seu corpo estava rasgado e mutilado, garras cortaram sua pele de ponta a ponta e agora o homem se lembra. Ele morreu.

     Ao acordar ele não era mais o Sr. que um dia fora, era somente mais um, outro, apenas parte de um inconsciente coletivo. Despiu-se do ser, desproveu-se de memórias e sentimentos, arrancados do seu corpo estraçalhado.

     O saber estar morto, o entender, era obviamente instintivo. Tudo agora seria instintivo. Essa criatura que acabou de nascer é feita de instintos e o rei de todos os instintos, aquele, o mais primal e governante de todas as vontades, está nesse instante urgindo. Fome.

     Olhou ao redor e viu o caos. Estava bem no centro da maior rua da maior cidade do mundo. Onde um dia já se pode presenciar uma via pulsante de vida, agora se vê a artéria principal do apocalipse. Vários de seus iguais corriam pelas ruas, com seus corpos dilacerados e suas faces por vezes deformadas, suas bocas não continham o sangue que escorria e manchava a pavimentação e suas almas. Carros virados, pequenas explosões ao fundo. Os milhares de seres humanos caiam às dezenas no chão, sobrepujados pelos cadáveres que um dia foram seus amigos de trabalho ou talvez a sua família.

     Deus havia tirado férias e o Diabo marcava ponto.

     O motivo de toda a carnificina ainda era desconhecido, mas em poucas horas, de diversos lugares do mundo, pretensos especialistas iriam à televisão, ao rádio e aos jornais tentar explicar o inexplicável. Mas é claro que não havia especialistas, ninguém nunca tinha visto nada disso. É claro que não havia o que se discutir. E é claro, não havia mais esperança.

     Poderia ser um vírus, uma doença. Mas essa teoria só serve para prover uma falsa luz no fim do túnel. Porque mesmo que seja um vírus, não cura. Não há tempo para se criar uma.

     Pode também ser castigo divino, ou talvez o inferno esteja lotado e os mortos se recusam a descer.

     Seja lá o que for ele está agora de pé em cima de um carro em chamas, gritando, uivando. Bradando sua dor e fúria, seu ódio e desespero como uma arma. Ele está morto, e foi jogado para o topo da cadeia alimentar.

     Seu prato favorito?

     Cérebro.

PERDÃO

setembro 25, 2009

     O homem que está sentado na poltrona chama-se Andre. A poltrona vermelha combina com o carpete bem desenhado e com a lareira, que se encontra logo à frente e complementa todo o ambiente. A sala encontrar-se-ia imersa na escuridão, não fosse a luz do fogo diante de Andre. A lenha estalava com um compasso caótico e levemente perturbador, tentando talvez contrastar com o silêncio ao seu redor, na casa e do lado de fora na rua.

     Toda a sala, como a casa, fora decorada para parecer antiga, ou para reforçar essa idéia, já que era realmente antiga. Era daquelas casas grandes e espaçosas. No momento, porém, a sala não parecia tão grande. Como se a própria casa lê-se a mente de Andre e se retraísse ao seu redor, como uma concha. Faltava a Andre descobrir se era a casa que queria protegê-lo ou a escuridão que vinha tomá-lo.

     Sentado há horas, apenas olhando para o fogo em silêncio, não se mexeu nem quando ouviu os passos de uma mulher entrando na sala, traída pelo som de seu sapato de salto alto que só foi abafado pelo carpete quando se aproximou da lareira. Olhou esquivamente para Andre e sentou-se ao chão, de costas para o fogo.

     A madeira na lareira solta novos grunhidos, como se soubesse que queimava viva. Seu som fora o único a quebrar o silêncio fúnebre do aposento por bastante tempo.

     – Não foi sua culpa – ela disse.

     A voz de Andre sai de sua boca dando a impressão de tranqüilidade, mas suas mãos tremiam. Ao perceber essa reação involuntária, ele aperta o braço da poltrona com força, quase rasgando o forro vermelho.

     – Eu… Fui eu quem fez, ninguém me forçou. – diz Andre, mexendo a cabeça pela primeira vez em horas, desviando seu olhar do fogo, para o seu colo.

     – Você estava com raiva, não pensava direito. – ela tentava, com voz suave, acalmá-lo.

     – Não. Eu não estava com raiva. Eu simplesmente não pensava. Eu não tinha ódio, rancor, lembranças. Eu não era ninguém, não era uma pessoa. Eu estava em paz.

     – Você se jogou no abismo, Andre. E ele se jogou em você.

     – E você? E QUANTO A VOCÊ? – Andre se descontrola e rasga o forro da poltrona. – Não. Esqueça, eu não tenho o direito de te perguntar isso.

     – Não, não tem. E quanto a você? Eu estou lhe estendendo a mão, para que você saia do abismo. O que você vai fazer?

     Andre olha novamente para o seu colo. Lá, a arma repousa com uma serenidade paradoxal à condição da sua existência.

     – É tarde demais para me estender a mão. – Ele levanta da poltrona com a arma em punho e caminha até o canto da sala, à esquerda da lareira. Estirado no chão, encontra-se o corpo de uma mulher com salto alto.

     – Isso não precisa acabar assim – ela clama.

     – Já acabou. – Andre se senta ao lado do corpo.

 

     Meia noite. O sino da igreja se dobra de um lado a outro a cada badalada como se tentasse enxergar por detrás dos muros de pedra construídos ao seu redor. Procurava descobrir porque naquela noite, treze badaladas foram ouvidas.

O PREÇO DOS DESEJOS

agosto 21, 2009

     Há muito tempo atrás, existiu um homem que encontrou uma lâmpada mágica. Quando ele esfregava a lâmpada, um gênio saia de dentro dela e dizia, “Posso realizar todos os seus desejos, mas tudo possui um preço equivalente, em algo que já se encontra em sua pose.” O homem que havia encontrado a lâmpada era muito pobre e não tinha amigos nem esposa. Trabalhava como escavador para um grupo de arqueólogos. Seu trabalho era árduo, longo e frustrante, por não recompensar devidamente seu esforço.

     Não sabendo de nada que o gênio pudesse cobrar dele, ele logo se apressou em pedir. “Gênio, não possuo nada que o senhor precise, portanto se não for incomodo, desejo muito ter uma casa mais confortável onde morar.” Para o qual o gênio respondeu prontamente. “Claro. Mas lembre que você foi avisado.” E voltou para a lâmpada.

     Então o homem, esquivando-se, fugiu do trabalho e voltou para casa. Quando chegou lá, ao invés de encontrar o modesto casebre feito com materiais desconexos, ele vê uma casa como nunca havia visto antes. Para ele, era uma mansão. Saiu correndo e entrou na casa, extasiado. Descobriu que possuía vários andares e diversos cômodos. Porém, quando entrou em um dos quartos e olhou-se em um grande espelho, aproximou-se e fitou seus próprios olhos. Sua íris estava branca. Seus olhos, que um dia foram de um castanho forte, um marrom intenso, agora eram vazios.

     Assustado, esfregou novamente a lâmpada e chamou o gênio. “Gênio, tiraste de mim a cor dos meus olhos! Você não me disse que era esse tipo de preço que eu estaria pagando pela sua magia.” E o gênio respondeu. “Você não me deu a chance. Mas se assim desejar, posso reverter todo o processo, a casa some, a cor dos seus olhos volta. É esse seu desejo?” O humilde escavador pensa muito e responde. “Não. Deixe estar. Quero agora ser rico. Sendo rico eu posso resolver isso depois. Mas antes me diga, qual será o preço desse meu pedido?” E o gênio avisa. “A vida dos seus cabelos. Eles não mais terão sua cor e nunca mais crescerão. Ainda assim deseja prosseguir?” Ele passa a mão pelos cabelos negros dele com certo receio, mas por fim diz. “Tudo bem, eu posso resolver isso depois.”

     Então seus cabelos ficaram brancos e sem vida como seus olhos e como prometido nunca mais cresceram. Assim, ao andar mais um pouco pela casa, descobriu um dos quartos cheio de dinheiro, notas e moedas saiam de todos os armários, das gavetas, de todos os cantos, em todo o lugar chovia dinheiro sem parar.

     No correr dos dias, o homem fez vários pedidos. Queria ser mais jovem, queria ter amigos, queria ser mais inteligente e queria por fim casar-se. Os preços, como os pedidos, foram também ficando mais caros. Nesses dias, ele perdeu sua cor de pele, que era bronzeada pelas horas de trabalho ao sol, ficou como mármore. Suas expressões se foram, e junto com elas seu sorriso, que muitas pessoas admiravam por causa dos seus dentes que eram perfeitos. Seu modo de andar, com isso, passou a arrastar seus pés pelo chão e por fim perdeu o modo como falava. Perdeu todo o seu sotaque, velocidade do discurso e tudo que fazia sua fala característica dele. Sua fala era agora seca. Mas a seu ver, tudo isso era muito simplório e podia ser resolvido.

     Foi então que, casado, rico com uma bela casa e com vários amigos, encontrou-se numa situação em que, sua vida era cercada pelos atos do gênio. Um dia ficou pensando se poderia conquistar algumas dessas coisas por si. Então à noite deitou-se em sua deliciosa cama, fez amor com sua esposa. Ao acordar, muito bem disposto, vestiu-se tão bem quanto o dinheiro lhe permitia vestir, ligou para seus amigos e pediu que lhe recomendassem um lugar para ver e conhecer algumas pessoas. Esses lhe indicaram um parque, próximo à cidade.

     O homem então foi ao parque sozinho. Andou um pouco, comprou pipoca, atirou pedaços de pão no lago e sentou-se num banco para ver as pessoas passarem. Depois de quase uma hora sentado, percebeu que ninguém olhava para ele. Quando olhavam, era como se o fitassem muito fixamente por um tempo e depois viraram o rosto. O homem não entendeu direito o porquê disso. Irritado, chamou novamente o gênio ali mesmo.

     “Pronto para o próximo pedido?” Disse ele. “Não, eu quero saber por que as pessoas me encaram. O que se passa?” “O senhor fez muitos pedidos. Pode estar vestindo um terno para cobrir sua pele, óculos para cobrir seus olhos e chapéu para cobrir seu cabelo. Mas isso não era apenas a sua aparência, era também quem você é. Você se desligou de você mesmo e agora nem as outras pessoas o reconhecem como pessoa. Mal podem vê-lo.” Disse o gênio com solenidade.

     O homem saiu do parque e voltou para casa. Sentou-se em seu escritório e começou a pensar sobre o assunto, dando uso ao seu pedido por inteligência. Chamou o gênio, para questioná-lo sobre reverter alguns desejos, mas esse lhe disse que só poderia reverter todos, não somente um. Como não gostava da idéia de perder todos os seus atuais benefícios, resolveu pensar mais sobre o assunto.

     Chegou à conclusão que a solução deveria ser um último pedido. Invocou o gênio e o ordenou, “Quero realizar apenas um último desejo, quero que as pessoas voltem a me perceber, mesmo que eu tenha perdido algo de mim, quero que todos me vejam como antes.” Ao que o gênio respondeu, “Está certo, porém esse desejo custará caro, não menos que os seus princípios.” O homem nunca havia pensado sobre princípios, e achou que como eles não influíram na sua vida até aquele ponto, então não teria problema em livrar-se deles. Aceitou o preço.

     Para testar o desejo que acabara de ser concedido, resolveu sair para a cidade, avisou sua mulher que não esperasse acordada e saiu. Andou pelas ruas, entrou em bares, dançou em boates. Interagiu da forma que sempre desejara com as pessoas. Elas o viam e ele gostava disso. O respeitavam pelas suas roupas, seu dinheiro e estavam alegres ao seu redor e isso o fazia feliz.

     Quando se cansou, voltou para casa e ao entrar encontrou sua mulher na sala. Ela acordou quando ele bateu a porta e se levantou. Estava muito preocupada devido à hora pois estava quase amanhecendo. “Não mandei que não me esperasse? Vá dormir logo.” Disse ele rispidamente. “Eu só estava preocupada, já é quase manhã e…” Mas não conseguiu terminar o que ia dizer. Recebeu um forte tapa de seu marido e foi enforcada até a morte.

     Ele não soube dizer o porquê fez aquilo. Mesmo em sua mente, não soube pensar em um motivo que o fizesse matar sua esposa. Sentiu raiva e logo o fez. Ela estava morta. Foi à cozinha sentindo um misto de raiva e confusão. Tomou um gole de água, respirou, fechou os olhos. Logo a culpa foi tomando conta da confusão. Sentiu ódio de si mesmo. Sua mão tateou uma faca na pia e acertou seu próprio pescoço. Nem teve tempo de pensar no que estava fazendo.

     Na sala, não há corpo de mulher em seu humilde casebre. Nem lâmpada. Tudo era um desejo que sumiu carregado pelo vento.

VINTE E QUATRO ANOS DE BROCHADA

agosto 18, 2009

     Puxaleve estava sentado num barzinho, terça à tarde, esperando Doravante, seu amigo chegar. Quando ele chega, senta-se e pede mais uma garrafa e um copo.

– Que cara é essa? – diz Puxaleve

– Brochada.

– Xíííí… nem conta, não quero nem saber.

– Que? Não, né nada disso, ô animal! É o país.

– País? O que o país tem a ver com a sua brochada?

– Deixa de ser tapado Puxa. Você não vê? O país é que tá brochando. Faz vinte e quatro anos que o Brasil tá brochando.

– E como é que país brocha?

– Tudo começou por causa do desgraçado do Tancredo em 85. Opa, valeu heim. – Doravante agradece ao garçom que deixa o copo e a garrafa na mesa.

– Mas o Tancredo morreu, ele foi eleito e morreu antes de tomar posse.

– Exatamente, o desgraçado morreu e deu o cargo pro Sarney! Pro Sarney!! Tem desgraça maior que essa?

– É eu lembro essa daí. Lembro que até na época não se sabia direito se era ele ou o tal de Ulysses que devia ser o presidente mesmo. Mas o cara tinha a grana e o poder então acabou sendo ele.

– E o desgraçado ficou cinco anos no poder pra depois dar lugar a quem?

– Ahn… deixa ver, depois dele veio… vixi, foi o Collor.

– Nem precisa falar né? Durou dois anos e entrou o Itamar pra substituir. Foi melhor que o Collor, mas também pra ser pior só se o Bush fosse eleito. Mas também fez um monte de cagada. Lembra o plebiscito em 93? 30% da população nem apareceu ou anulou o voto e 10% votaram na monarquia. MONARQUIA!! As pessoas preferiam ter um rei a um presidente. Claro, as nossas experiências com presidentes tinham sido na ditadura, o Collor e o Sarney.

– Haha, eu me lembro disso, ele mudou de partido pra se eleger e tudo. Essa história de fidelidade partidária nunca colou com ninguém.

– Exato, mas uma das poucas coisas decentes que esse cara fez, o Fernando Henrique foi lá e tascou a mão. O real. – Doravante joga uma nota de R$ 10,00 na mesa.

– A inflação tava braba.

– Tão braba que às vezes a gente ia à padaria pra comprar pão e não tinha porque o preço da farinha foi pro espaço! Mas todo mundo votou confiante no FHC, o cora era formado em sociologia, professor da USP, renomado estudioso de Maquiavel e ainda por cima de família rica. Pô, o cara tinha bala na agulha, era inteligente e instruído. Tinha tudo na mão… FUDEU com o país que nem jegue comendo uma virgem.

– Esse era um que eu matava. Não tem sujeitinho mais escroto que esse. Posando de intelectual, não fez porra nenhuma. O Lula eu até posso perdoar, o cara passou fome quando criança, sem educação formal. Mas um sujeito de faculdade, família boa, cheio de oportunidade se vender assim que nem ele.

– É mais o Lula também não é inocente. Afinal ele brigou tanto pra se eleger pra que? Cinco vezes! Se candidatou cinco vezes. Dava até a impressão de que o cara ia salvar o mundo. Tava com tanta vontade de se eleger que parecia que tinha descoberto a saída de todos os problemas. Porra nenhuma. Ta aí, viajando e falando merda igual um pedaço de pau de bosta.

– Ta aí ainda, não sabe de nada, não quer nada com nada. Mas qual é o ponto disso tudo?

– Cê não entendeu ainda? O país vem brochando desde a época do Tancredo. A gente só tem tido um bando de safado ou idiota no governo e os caras não fodem nem saem de cima. São uns brochas e a gente ta brochando junto. Aliás, junto não, eles tão brochando a gente. Percebeu um certo padrão na presidência desde aquela época? O Tancredo é eleito, mas o Sarney entra. Depois o Collor é eleito e o Itamar entra. Depois disso mudou a moeda, ai o Fernando Henrique tem dois mandatos, depois o Lula tem dois mandatos.

– E daí?

– E daí que primeiro alguma coisa acontecia e um presidente acabava sendo tirado do governo para outro entrar. Quando ele entrava, nós não tínhamos escolha. Já foi difícil por alguém lá e agora que seja-lá-quem-for entrou, não dá pra tirar. Depois os passamos a reeleger os presidentes, de novo, por completa falta de escolha. Lula é igual ao Fernando Henrique que é igual ao Itamar que é idêntico ao Sarney, não interessa. Qualquer um que estiver lá vai fazer a mesma porcaria. Brochar.

– Tá, e pra que você chegou aqui já falando disso?

– Ah, Puxa, fica quieto e pede mais uma.

A ARTE DA MANIPULAÇÃO MANIPULÁVEL PARA PESSOAS MANIPULADAS

agosto 14, 2009

     Pensei seriamente em não entrar na discussão entre o Globo e a Record. Mas revendo recentemente os vídeos sobre a briga, uma das acusações da Record me chamou a atenção. O apresentador do jornal disse que a Globo vem “manipulando informação”. Isso me soou tão estranho. É óbvio que a Globo manipula informação, e a Record também, e todos os outros canais, e revistas, e pessoas. A quantidade de blogs que noticiaram o acontecimento foi enorme e após o contra-ataque da Record então, os que tinham ficado quieto entraram na briga. Mas imagino que com uma opinião um pouco deturpada de o que é manipular informação.

     Era exatamente sobre isso que eu gostaria de falar. O discurso por definição não é somente manipulável, ele muda completamente de acordo com o seu emissor.

     Pra começar, vamos trabalhar com o conceito de verdade. Excluindo a definição de Nietzsche ou as teorias metafísicas, a verdade com que quero trabalhar é um fato. Algo que aconteceu de verdade. Restringindo bastante, não estou trabalhando com a possibilidade ou a questão de valores. Então se for verdade, aconteceu mesmo. E a mentira será então algo que por analogia não aconteceu, ou não existe.

     Então em um discurso pode existir 4 opções lógicas. A verdade, a mentira ambos ou nenhum. A hipótese de ambos se realiza quando a história possui meia verdade, mas ela não é completa, seja por mentir em algum ponto ou omitir algum fato relevante. Nenhum seria quando não há entendimento, não existe compreensão da parte do receptor da mensagem para ter uma opinião sobre o discurso.

     Sendo assim, todo discurso pode ser manipulado e é manipulado dependendo de cada falante que o usa. Por exemplo, quando a Record disse que a Globo editou tendenciosamente o discurso eleitoral Collor-Lula em 1990. A Record também tendenciosamente afirma que a Globo faltou com a verdade cortando partes do debate, pois todo programa de TV na época era cortado e editado e por mais que a Globo possa ter exagerado nos cortes, quem conseguiu pôr as mãos na versão não editada viu que o Lula simplesmente não estava pronto. Ele se calou quando confrontado e deixou o Collor pôr o dedo na cara dele e quando abriu a boca foi para gaguejar. Sinceramente, sem cortes ele ia parecer simplesmente patético.

     Nesse caso a Globo apresentou um cenário em que a história possui meia verdade, a Record apresentou um cenário sem fundamentos e para o receptor que via à discussão sobrou a verdade e a mentira, distribuindo-a de acordo com sua opinião sobre as informações, sua experiência de vida, e senso crítico.

     Não quero defender nem um lado nem outro, mas é óbvio que, relendo esse texto, vejo que ele também é tendencioso e foi escrito de forma a moldar uma informação no sentido de convencer o leitor de um ponto de vista. De fato, isso tudo não é necessariamente verdade. É a verdade pra mim, não será para alguns, alguns só concordarão com metade e outros sequer entenderão o que quero dizer.

     Esse ciclo nunca se acaba e então não existe tal coisa como “manipular informação”, pois toda informação é manipulada por definição. De fato, a única forma de se conhecer realmente a “verdade” tal qual definida aqui, é conhecer TODOS os ângulos de uma situação e julgá-la de acordo. E mesmo assim ainda depende de tantas variáveis pessoais que eu canso só de pensar sobre.

ÀQUELES DA “VIDA FÁCIL”

julho 22, 2009

     A indústria ponográfica nos dias atuais é uma maquina gigantesca que gera empregos e trabalhos em todo o globo. Sustenta famílias, cria suas próprias estrelas, projeta toda uma gama de marketing, público e organização próprios. Pra falar a verdade, todo o que se vê livremente nos meios de comunicação que vem seja de Hollywood ou de independentes, pode-se encontrar também sobre o pornô. Eles até possuem uma festa do Oscar só deles.

     Isso tudo, não exclui o fato de que a vida das atrizes e dos atores que pertencem à esta área de atuação. Não que o resto da cadeia navegue em um mar de rosas, não. Suas vidas, seus empregos provavelmente possuem um teor de desafio a cada dia, mas, absolutamente, aqueles que estão ali, diante das câmeras, estes são os que mais sofrem.

     Os veteranos possuem certas regalias, já os novatos não. Estes são postos a prova a cada tentativa de avançar outro passo ao estrelato. Alguns são beneficiados por experiências anteriores ou pela mídia convencional e pulam todas as etapas, como os travestis que… ahn… jogavam buraco com o jogador de futebol Ronaldo atualmente no Corinthias.

     Pra falar a verdade, eu conheci um cara uma vez que tomou um rumo diferente. Cansado de ter que se humilhar fazendo… jogando buraco, ele se especializou na área menos conhecida desse ramo. Os produtos. Como manequim de camisinhas ele se saiu muito bem e hoje em dia vive uma vida confortável na Grécia. Foi tão bem sucedido como manequim que foi chamado pra fzer propagandas sobre a AIDS ao redor do globo e até acabou virando modelo em um desfile em Toronto.

     Como eu disse, ele vive tranquilamente hoje em dia, com a vida ganha. Mas infelizmente nem tudo são flores na vida (de Joseph Climber). Todos os anos gastos com… carteado, o alcançaram e ele descobriu que foi acometido por um tipo novo de sífilis autamente raro, só visto em antes em um outro paciente. Esta nova doença dificultava muito suas ereçôes, o que fez com que toda sua carreira como manequim desmoronasse.

     Não fosse é claro a empresa nipônica KitSack produtora das camisinhas Kit Kat, uma linha voltada para menores de idade. Por ser uma antiga empresa de bomboms de chocolate e ainda possuir os direitos da marca, esse é o mais famoso formato da linha. 

Oscar da Indústria Pornô

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