Alice era uma menina sensacional. Daquelas que dão torcicolo quando passam. Dezenove aninhos, pele lisinha, olhos verdes saltitantes e uma suposta virgindade, que era causo pra assunto por horas entre a galera da rua. Havia os céticos de um lado e os bíblicos. Os céticos nem davam bola pra esse papo de hímem. Logo a Alice? Qualquer outra vá lá, mas a Alice? Já os bíblicos tinham fé. Precisavam crer que existia um propósito maior e que ela ainda estava selada e lacrada.
Quando questionada sobre o assunto, Alice apoiava que era virgem e ainda soltava a bomba. “Eu só vou me entregar quando casar.”
Um dos garotos do bairro não e se agüentou e propôs logo. Na verdade, mais por curiosidade que por amor. Queria ver a Alice, como a Alice devia ser vista. À olho nu. À corpo nu. Ele, bom partido, boa família, pescou o interesse da Alice e casaram-se. Reza a lenda que a noite de núpcias durou 11 dias. Os três primeiros o marido passou rezando devido a uma promessa. Os quatro últimos ele passou no hospital, caso clínico de inanição. Passara os outros quatro dias sem comer. Comida.
Por desgraça do destino, três messes depois o marido de Alice morreu. Acidente de avião na Alemanha. Foi visitar o país a negócios e voltou numa cama de madeira. O enterro foi um inferno para a Alice, tinha mais gente ao redor dela do que do defunto e nunca se viu tanto marmanjo fingindo choro. Familiares do presunto e da Alice, amigos de ambos, transeuntes, todos tentavam agradá-la. A vaga estava aberta novamente. Mas ela foi incisiva pros mais persistentes. “Só casando.”
E é claro, como era Alice, a vaga foi rapidamente preenchida. E Alice também, foi preenchida. Um casamento sólido, pacífico, e monogâmico. Tinha tudo para ser eterno e foi, enquanto durou. Eterno por seis meses e dois dias. O divorcio foi pedido pelo marido que alegou em segredo para o advogado da Alice, “não da pra acompanhar. É todo dia, toda hora, a gente não desliga o ar-condicionado faz dois messes. Aliás, acho que é a primeira vez que eu saio da cama essa semana.”
Mas Alice não se deixou abalar. O advogado, o pai do advogado, amigo de infância, seu dentista, corretor de imóveis, músico. Alice casou-se e casou-se. Com o recato de uma virgem, nunca fez “aquilo” fora do casamento. Assim lhe foi ensinado.
Hoje, Alice mora na França, muito bem obrigado, com seu marido Jacques. Setenta e seis anos e com 37 divórcios, 8 funerais e 3 fugas. Jacques tem vinte e dois anos e é sustentado pela inacreditável pensão que Alice recebe.
Jacques recentemente renovou o seu passaporte e planeja secretamente uma viagem para o Alaska.